Sinopse: A escritora Vanessa Barbara faz sua estréia editorial com um livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Primeira obra jornalística no catálogo da Cosac Naify, O livro amarelo do Terminal empreende uma viagem singular ao que seria uma versão condensada do mundo , como diz João Moreira Salles na orelha da edição. Valendo-se de recursos narrativos variados, que vão da reportagem clássica ao humor nonsense, o olhar da escritora pinça, em meio ao tumulto, os tipos que passam por lá todos os dias – vendedores, crianças, velhinhas, surfistas -, e registra uma história oral do local a partir dos fragmentos de conversas colhidas ao acaso. Esta polifonia aparece também no projeto gráfico do livro. Suas páginas amarelas, de gramatura mais fina, brincam com a transparência e a sobreposição parcial das letras. Já os capítulos de cunho mais histórico são impressos em papel semelhante ao carbono, como os dos bilhetes de ônibus. (Sinopse do Skoob)

E nesse limbo de leitura em que entrei devido à correria dos últimos dias, consegui sentar pra ler um livro que estava na lista há tempos: O livro amarelo do terminal. Me recomendaram quando estava no meio do mestrado, “é uma super aula de como descrever o campo, Camila!”. Mas os tempos passaram e não consegui ler haha

“A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas.”

O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 14.

Essas jogadas com a transparência do papel, meu bom chessus. <3

O livro vai fazer esse processo de mapear e descobrir a rodoviária em todos seus aspectos, do ponto de vista das pessoas que trabalham nela. Pessoal da limpeza, da segurança, carregadores, os passageiros, motoristas, galera das lojas, pessoal que não vemos quando passamos por lá… E é impressionante a sutileza e as escolhas dos termos que a autora faz pra comparar as situações e histórias que ouve.

“- 49 – diz um senhor, de repente, aproximando-se de Cíntia.
Ela nem pensa. Olha para ele e apenas retruca, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
– Primeiro corredor à esquerda, no final.
– Ah, obrigado.
É sempre bom saber como reagir quando alguém chega de súbito e diz: “49”. Anote aí a resposta: primeiro corredor à esquerda. Pode acontecer a qualquer momento. E em qualquer lugar.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 35

Aliás, quando a gente realmente para pra ouvir as histórias das pessoas descobre que não conhece ninguém nem nada sobre a vida. A variedade de opiniões, de histórias de vida, de sinapses estranhas que o cérebro parece fazer tiram o aspecto de massa e de grupo. Cada um tem uma vida, uma família, um histórico e opiniões.

“Rosângela conversa com as pessoas sem rosto da rodoviária. Olha nos olhos de cada uma e ouve, com atenção, o que têm a dizer. Lembra-se de muitas delas, sabe quais são seus nomes e suas histórias. Dá um exemplo de relações públicas até para os altos funcionários da Socicam.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 46

E começa a odisseia por todos os telefones em que empurraram a pesquisadora…

O livro vai sendo separado por capítulos que dividem a história de cada um e os pedaços da rodoviária, tem um capítulo inteiro, por exemplo, que é a autora tentando falar com quem tem acesso aos contratos de licitação (o melhor é que ela já abre com a lei que diz que os documentos públicos devem ser… bem, públicos), e é passada de número em número, de ramal em ramal, até finalmente falarem “mas, moça, é público, mas é privado”. HAHAHA (rindo, porém, que drama, senhores e senhoras).

“Quando, no telefone principal, a chamada vem do balcão de informações, é provável que se trate de um PA – “Eu não sei a tradução, mas quer dizer que tem gente querendo anunciar um nome”. Ou então um AAU: “Que a tradução eu também não sei, mas é quando tem que chamar um FT para ajudar usuário”. Sim, a comunicação é feita em siglas obscuras, de sentido vago, mas que todos sabem “mais ou menos” o que querem dizer.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 85

Fiquei simplesmente apaixonada pela dose de sarcasmo e ironia extremamente sutis que ela usa. Seja quando a relações públicas do metrô lhe diz que não pode entrevistar as pessoas (porque vai que elas falam alguma coisa errada) e ela apenas escreve que já está lá há mais de 6 meses entrevistando e bem… não lhe importa. HAHA É simplesmente maravilhoso. E ainda por cima transcreve as conversas que teve com ela:

“- Escuta, mas proibir os funcionários de falar não é errado? E a liberdade de expressão?
Ela dá risada. Ah, essas crianças. Nunca entendem.
– Não, não é isso. A gente apenas instrui o funcionário, só porque ele pode dizer algo errado, aí prejudica a empresa. Não sei em termos de jornalismo – não entendo nada de jornalismo, eu faço Relações Públicas -, mas eu estou aqui na Socicam preocupada só com uma coisa…
– … a segurança dos usuários, eu sei, mas…
– Não, não! Quer dizer, a segurança também, mas estou preocupada com a imagem. Então tenho que prestar atenção no que as pessoas falam para a imprensa, no que vai dar no jornal. Não pode pegar mal.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 127

Aí a delicadeza do sarcasmo, se fosse entrevistar exatamente apenas e como permitem, eram mais fácil ter usado esse gerador automático de reportagens.

Você se apega a todos os funcionários do metrô, às histórias de vida dos passageiros, mesmo que rápidas, te fazem querer começar a procurar freiras com pranchas de surfe pra bater um papo, ou ir perguntar pela Rosângela, pelo Hugo da Le Postiche, pelo carregador número 101, mas que provavelmente não estarão lá hoje. Estarão vivendo suas vidas em outros locais e com mais histórias para contar.

Essa leitura foi realmente uma lição lindona de como fazer uma pesquisa de campo, deu a mesma sensação de quando fiz a do mestrado, e fui conhecendo as camadas de cada um, as complexidades, as histórias estranhas de alguém que seria só mais uma pessoa se você não tivesse parado e conversado com ela. Uma desmassificação das pessoas e dos lugares.

Os elementos que ela nota, a possibilidade de desconstrução dentro do projeto gráfico do livro (eu poderia ficar horas só elogiando isso, aliás. Tipografia, papel, as propagandas, os relatos das origens, aiai…), tudo adicionou em um livro com tanta personalidade que nem sei. Dá vontade de reescrever tudo, de imergir no campo que estudei com esse exemplo lindeza demais na mente.

Vou só terminar com um dos diálogos mais xuxus antes que escreva uma bíblia sobre esse livro que merecidamente ganhou um Jabuti:

“E foram andando, um velhinho de cada lado. Ele, contente à beça; a mulher, meio emburrada. Mas a birra não durou muito: logo estavam se desdobrando de rir quando, a certa altura, Rosângela perguntou se o casal tinha filhos.
– Não, moça – disse Cláudio. – Sabe o que é? É que a gente já casou com a validade vencida…”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 105

Ps.: Tem váaarios trechos maravilhosos selecionados aqui no Tumblr 🙂 E também uma aventurosa divulgação da resenha no nosso Insta  😉

O Livro Amarelo do Terminal
Autora: Vanessa Bárbara
Editora: Cosac Naify
Páginas: 254
Link do Skoob