capa de ainda estou aqui de marcelo rubens paiva

Ainda Estou Aqui trouxe surpresas, lágrimas, dúvidas, uma sensação louca de empatia e um novo autor preferido.

 Sinopse: Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971. (Sinopse do Skoob)

E acho que esse livro já entra na minha meta de 2017 de livros que geralmente não leria. haha

Não sou de ler muitos livros de biografia, ou que tenham esse clima de drama que sei que vai me deixar destruída no final… esse livro veio no kit de dezembro da TAG Livros, e aí, começo do ano, aquela capa com soft touch que me atraiu loucamente… comecei a ler.

“E se perguntará se existe uma fase em que a comunicação com o mundo se passa pelo umbigo, e se as primeiras lembranças entram por ele.”

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, p. 17

Não li Feliz Ano Velho, e depois de ler esse, e acabar criando um vínculo quase familiar (que quase… depois de saber tanto da família de alguém, é como se a gente ficasse super próximo…) com o autor e a família, acho que já foi pra lista de leituras necessárias.

O jeito como ele escreve é delicioso, é como se você sentasse para bater um papo com alguém e um assunto fosse puxando o outro, um acontecimento gerando aquelas pausas e links que aparentemente não tem nada a ver (conversas são assim, afinal de contas, a gente começa a contar de um dia na praia e termina falando de como ralou o joelho na rua de casa em meados de 1998).

A premissa é contar sobre Eunice Paiva, a mãe do autor, mas para fazer isso, é preciso fazer uma jornada por reminiscências que passam, obviamente pelo assassinato de Rubens Paiva (o pai do autor) durante a ditadura, pelo dia a dia de uma mulher tentando reconstruir a vida para criar cinco filhos, e ainda tendo independência suficiente para descobrir-se ela mesma.

“A cara de Eunice continuou molhada e salgada durante muito tempo, tal como naquela manhã de Búzios. A água é que não era mais do mar.”

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, p. 36

Aliás, a força dessa mulher ainda me dá arrepios. E a proposta do livro existir para manter viva as memórias dela (já que ela mesma não pode fazê-lo), por mais que ainda esteja aqui, como ela mesma diz (aliás, que frase arrepiante vinda de alguém com Alzheimer).

“Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país que é.”

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, p. 39

A história é densa. É pesada. É crua. E é por isso que gostei tanto, é sincera em todos os momentos que precisa ser, e por isso você se apega e vincula a todos que aparecem. Participa das mágoas, das lutas, das tensões, se questiona como deve ter sido viver tudo isso tão de perto (embora não estejamos tão longe, algumas partes lembram tantos os tempos atuais, que bate aquele medo), e ainda assim ter força de vontade para levantar a cabeça e falar “vocês ainda não viram nada”.

“[…] dando a impressão que de repente toda a intelectualidade tinha virado comuna, e a tradicional família cristã sofria, seus filhos viam Nouvelle Vague, liam marxismo, diziam que religião é o ópio do povo, e outros, niilistas, falavam da morte de Deus, outros, de direitos civis, feminismo, sexo antes do casamento, duvidavam da monogamia, debatiam o sentido da vida, fumavam Gauloises e liam um casal de filósofos comuna e promíscuo, Sartre e Simone.”

Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva, p. 134 (EITA, olha essa semelhançaaaa!)

Se eu chorei lendo? Ah, chorei. HAHA Chorei tanto quanto deu, para não impedir de dar aquele embaçado nas letras e poder continuar lendo. Mas acho que era pra chorar mesmo. Mas apenas por trás das câmeras. De resto, apenas motivação e esperança de ver se tenho tanta força quanto a Eunice.

Ainda Estou Aqui
Autores: Marcelo Rubens Paiva
Editora: Alfaguara
Páginas: 296
cinco estrelas

Link do Skoob