Nas absurdidades do dia a dia – Cumbuca Camilar #4

por | out 2, 2026 | Cumbuca Camilar, Diários de Uma Escritora

mais um da série de posts da Cumbuca Camilar.

Esse foi publicado originalmente em 17 de julho de 2023.

Sobre 14 pares de sapatos amarelos, um colete de oncinha e Godot.

Desassossego.

Palavra confortabilíssima de dizer, o que parece paradoxal.

Tem coisas que batem com a gente em relação a entretenimento que sempre me deixam curiosa: teria eu um tipo pras coisas que eu gosto? Tenho um padrão?

Padrão permite ali uma certa constante, certo? O caos realmente caótico é raro, então mudanças constantes também podem ser ali um certo padrão.

Estava lendo Beckett essas semanas, lendo artigos, e pensei: minha nossa, tem a carinha de Twin Peaks (que foi uma recente descoberta incrível, abraços ao Vlad que sempre me disse que eu gostaria das coisas do Lynch, estava corretíssimo).

Na primeira newsletter eu falei sobre lembranças e coisas ruins boas, na outra sobre jornadas, aí parece que alguns loops de assuntos sempre acontecem. Tem coisas estranhas que li na infância que me acompanham nas estranhezas que gosto hoje em dia.

Tem jogos do absurdo que aquecem, algo que funciona pra mim como um alento, mais absurdo que a própria vida, que o próprio fracasso de tentar racionalizar o que acontece conosco à exaustão.

Geralmente essas coisas absurdas têm palavras muito gostosas de serem lidas. O lugar do absurdo permite usos de conexões inadequadas que ficam muito adequadas. Em Esperando Godot as frases vão se encadeando de um jeito (ou quando chega o solilóquio de páginas de uma das personagens) que eu simplesmente “ah, que maravilha: palavras”. Essa luta do Beckett pra tentar quebrar qualquer tentativa de conceber sentido e acomodamento do público nas cenas, de entender o que ele quer passar, leva pra lugares diferentes. Mesmo assim consegue-se explorar sentidos e mensagens. Apesar de todas as tentativas de quebrá-los a gente é teimoso.

Há um tempo li A Bicicleta Epiplética de Edward Gorey e gosto de voltar lá sempre pela sequência que aquela história curtinha me oferece, do nada aparecem 14 pares de sapatos amarelos, do nada é citado um colete de oncinha que supostamente sumiu, do nada a bicicleta solta um “eita” (não é um eita, mas soa como um eita) e puft.

ilustração de uma das páginas do livro a bicicleta epiplética. O desenho é todo feito em nanquim e bico de pena, em preto. No close a bicicleta está meio capenga com suas rodas pra dentro, no guidão a irmã está meio deitada, como se voando e pensando na vida enquanto olha à frente, as mãos na cabeça. No selim, o irmão deitado de bruços, olhando para algo acima de uma árvore que não pode ser vista na imagem. Os dois estão de camisolas, ela de uma lisa com listra na manga e o garoto com uma toda listrada.
Uma das ilustrações do livro A Bicicleta Epiplética.

 

Automaticamente ao lembrar do progresso da história já vem um riso de “kkkkk muito bom” em minha face.

“Ah, mas não faz sentido”, bem, a vida também não, e olha que linda essa palavra isolada que vai perdendo e ganhando novos sentidos no meio do absurdo todo.

Trabalhar com palavras é vê-las perder sentido a todo instante. “Carro é com dois Rs mesmo?”, se pergunta uma revisora incauta depois de algumas horas vendo um aglomerado de riscos que (supostamente) compõem palavras. “Nossa, audição de música é audição do sentido também, que coisa…”, e mais tantas dissociações que o cérebro vai compondo e decompondo vezes seguidas, num pique muito semelhante às bagunças absurdas que preenchem uma rotina.

Desassossegadamente seguimos, com desassossego construímos significado pra absurdos, que poderiam simplesmente ser encarados como absurdos. Como alguém ter estado no dia anterior conosco, nos encontrar de novo e dizer “ué, mas nunca estive aqui”, e continuar esperando um Godot.

Para esperar os Godots não se pode desassossegar. O que nos move nos absurdos é oposto a sossegar. Sossegar te faz imóvel. É possível curtir os absurdos sossegadamente, mas por um tempo limitado. Sossegou demais e o absurdo deixa de o ser. É preciso que absurdos se mantenham absurdos. É preciso desassossegar de vez em sempre. Pra que sentidos nasçam e morram. E dessentidos surjam nas pequeninas janelas absurdas da criação.

 


O texto desse mês não tem lá muito objetivo a não ser essa absurdência toda e uma vontade de habitar menos o black lodge que habita em cantos incautos da mente.

E vi esse tuíte de uma (des)entrevista do Samuel Beckett, simplesmente maravilhoso. Só não poderia fazer nenhuma pergunta.

Se você tiver livros absurdos que tocam seu coração também deixa aí pa nois que nunca é demais!

Em outros assuntos, o catarse deu certo! Fica o agradecimento e o comentário de que estamos aí trabalhando no bendito! <3

E também fomos bater papo sobre os absurdos de escrever lá na Rádio Ganimedes (abraços pro Murillo!):

 

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