mais um post da série de posts publicados lá na Cumbuca Camilar.
Esse foi postado originalmente em 08 de maio de 2023.
No texto de hoje: uma cumbuca de negação catártica e o que deixamos de nós nas coisas
Vamos à Cumbuca da vez.
Ao pensar em como começar a Cumbuca de maio, me veio uma ideia de falar um tico sobre o comecin da sinopse do bendito livro novo.
Você tem problemas em dizer não?
A Samanta também.
Em uma conversa com minha psicóloga (eita, newsletter terapia), ela comentou algo que me fez refletir: “o quanto de Camila havia em cada livro que eu escrevia?”.
Eu, crente de que fazia cada história para ser autoportante, que escrevia ficção e personagens que não necessariamente eram facetas internas… bem. Talvez estivesse um tico equivocada nessa proporção.
Tem um charme libertador no ato de dizer não.
De falar “ah, tranquilo, deixa pra próxima”.
Um “não, valeu”. “To sussa”.
Um ato libertador de não ser uma obrigação nossa o autossacrifício pelo eterno bem-estar alheio.
Mas, embora libertador, tem ali anos e anos de querer agradar todo mundo ao nosso redor, em não ser um estorvo, um problema. Em fugir de conflitos, de evitá-los, enquanto o conflito não deixa de habitar a gente mesmo. Há uma questão muito específica sobre nuances, limites, que a gente só descobre no processo. No quebrar de coisinhas que habitam.
Aí, nessas jornadas de vida, de fazer 30 anos, eventualmente todo pokemón evolui (nem todo, mas abrindo aqui exceções pela frase de efeito), a gente vai ficando mais confortável, mais confiante ali na estrada que nos levará ao “me processa” da terceira idade! (mas guardadas algumas proporções HAHA)
Na zine do Hoje Serei Sua Guia, a única coisa que realmente lancei até hoje que tinha de fato um aspecto autobiográfico intencional, apareceram algumas personas, Lorikill e a Chaosmila (até voltei com elas pra uma tirinha que saiu de divulgação do catarse lá no insta), que eram aspectos extremos de mim sobre mim. E mesmo assim, mesmo ali, tinha o fantástico mais amplo da autoanálise facilitada.
Sempre tem um tico da gente naquilo que a gente produz, da mesma forma que o inconsciente traduz coisas e situações em imagens, acredito que isso descambe ali também nas personagens e situações que a gente cria. Tem coisa que é intencional, uma história, uma escaleta, um tema a ser tratado, mas tem coisa que escorrega.
Quase como uma água que se infiltra nas frestas das coisas, deixando aquilo que talvez seja um tico do que identifique a gente. Será o famigerado estilo? Aquilo que desliza da gente na escrita?
Não sei. Tem coisinhas de estilo que ao longo da prática nas coisas (seja desenho, escrita, dança, sei lá) que a gente sabe que tem nossa cara, mas alguns elementos escapem desse escopo consciente. Uma voz talvez recheada de nós.
Eu não escrevo por terapia, escrevo por precisar. Por sentir que preciso contar uma história para que ela saia de mim e vá existir separada. Mas talvez não seja só em algumas reflexões internas, em algumas temáticas, em alguns “não”s impossíveis de serem ditos que faça isso.
Eu não sou a Samanta de O Dia que Sumiu, não sou a moldadora, não sou a caminhoneira de Desenredos, o Oliver de A Sexta Feira, nem muito menos a Neblina, mas talvez algo mais de Camila exista nessas personagens todas, nesses cenários todos. Algo mais do que eu esperava que fosse parar lá. Talvez seja essa a magia de dar vida a uma história, de não ter controle sobre exatamente tudo que foi colocado lá.
Estranho começar com uma reflexão sobre dizer não e descambar em um pensamento sobre o que dizemos sim ao contar uma história, um sim intencional ou não, mas é isso que coube nessa cumbuca de maio.
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