O Apanhador no Campo de Centeio – Rapidinhas #8

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“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar para onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas seria a única coisa que eu queria fazer.”

O maior mérito dO Apanhador realmente é o fato de ter sido o o primeiro livro americano a dar atenção à audiência adolescente, assim criando um ramo na literatura que até hoje perdura. É, inegavelmente, um clássico.

Todo o descontentamento pós-guerra dos EUA são condensados em uma narrativa muito humana, muito íntima, seguindo o ponto de vista de Holden Caufield enquanto ele relata sua vida e seus anseios de forma que somente uma pessoa que se importa com os sentimentos dele poderia interpretar. Por exemplo: Tudo para ele é babaca (phony, no original), exceto a irmã que não cresceu ainda. Com o fluir da narrativa você percebe que o desprezo por tudo na verdade é um medo do futuro, um medo de virar adulto. Toda as pessoas que dizem que o livro se arrasta, na minha opinião simplesmente falham em perceber que cada cena representa alguma coisa da psique dele.

O desejo dele de ser um apanhador no campo de centeio é, tecnicamente, o desejo de salvar as crianças de um futuro que ele teme. Essa é a mágica do livro: Ele fala com o coração. O livro é bem famoso por encantar muita gente por que ele consegue tocar num eu que todos nós tivemos (ou temos).

Bom, se tem uma coisa chata é a maneira como ele fala daquele jeito que, puxa, os adolescentes daquela época falavam, então, carambola, isso é mesmo chato, puxa vida, não é mesmo?

O mais interessante é como ele reitera o tempo inteiro que é louco e ao final da narrativa você descobre que aquela narração é um exercício psicológico dele. Só lendo pra entender.

As pessoas que não enxergam isso ficam indignadas que um livro desses seja tão famoso e acabam odiando, por isso tem tanta resenha enaltecendo o teor do livro e muitas descendo o pau nele, ou seja, quase todo mundo ou ama ou odeia. Eu apenas gosto, e por isso O Apanhador no Campo de Centeio alcançou 7 Gabos no medidor.

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O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger
208 páginas - Editora do Autor

PS: Qual a dificuldade de fazer uma capa boa pra esse livro, meu? Sérião! Quanta capa feia. 

Graça Infinita – Rapidinhas 7#

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“É questão de certo interesse perceber que as artes populares dos EUA da virada do milênio tratam a anedonia e o vazio interno como coisas descoladas e cool. De repente são vestígios da glorificação romântica do Weltschmerz, que significa estar cansado do mundo, ou um tédio elegante. De repente é o fato de que quase todas as artes aqui são produzidas por gente mais velha cansada do mundo e sofisticada e aí consumida por pessoas mais jovens que não apenas consomem arte mas a examinam em busca de pistas de como ser chique, cool – e não esqueça que, para os jovens em geral, ser chique e cool é o mesmo que ser admirado, aceito e incluído e portanto assolitário. Esqueça a dita pressão-dos-pares. É mais tipo uma fome-de-pares. Não? Nós estamos em uma puberdade espiritual em que nos ligamos ao fato de que o grande horror transcendente é a solidão, fora o enjaulamento em si próprio. Depois que chegamos a essa idade, nós agora daremos ou aceitaremos qualquer coisa, usaremos qualquer máscara de tédio e de ironia cínica ainda jovens, quando o rosto é maleável o suficiente para assumir a forma daquilo que vier a usar. E aí ele se prende ao rosto, o cinismo cansado que nos salva do sentimentalismo brega e do simplismo não sofisticado. Sentimento é igual a simplismo neste continente (ao menos desde a Reconfiguração). (…) Hal, que é vazio mas não é besta, teoriza privadamente que o que passa pela transcendência descolada do sentimentalismo é na verdade algum tipo de medo de ser realmente humano, já que ser realmente humano (ao menos como ele conceitualiza essa ideia) é provavelmente ser inevitavelmente sentimental, simplista, pró-brega e patético de modo geral, é ser de alguma maneira básica e interior para sempre infantil, um tipo de bebê de aparência meio estranha que se arrasta anacliticamente pelo mapa, com grandes olhos úmidos e uma pele macia de sapo, crânio enorme, baba gosmenta. Uma das coisas realmente americanas no Hal, provavelmente, é como ele despreza o que na verdade gera a sua solidão: esse horrendo eu interno, incontinente de sentimentos e necessidades, que lamenta e se contorce logo abaixo da máscara vazia e descolada, a anedonia.”

Essa foi maior rapidinha já escrita. Ela devia se chamar demoradinha.
Mas como escrever uma resenha rapidinha de um livro de 1200 páginas? Como ser superficial com um livro tão denso, em todos os sentidos? Foi necessário um mês e meio contados (e uma semana de descanso) para acabar o maior e mais fascinante livro que eu já li.

É simplesmente genial, do começo ao fim.
O livro começa absolutamente confuso: David Foster Wallace utiliza os primeiros cinco capítulos pra acostumar o leitor com a sua maneira de lidar com a cronologia, gramática-de-manual-de-instalação-de-eletrodomésticos, uso de notas e pontos de vista de personagens diferentes. Você se acostuma com a tensão crescente, as palavras abreviadas e cheias de siglas, os capítulos que terminam de forma abrupta na “melhor parte” e aprende a gostar disso porque está no mundo dele agora. Depois a leitura vai mais devagar e confiante, apresentando dezenas de personagens secundários e pequenas respostas que aos poucos te situam no mundo distópico de Graça Infinita enquanto passeia por temas como separatismo, drogas, depressão e suicídio, incestos, abuso sexual/psicológico, pais ausentes, família, filmes, teoria do entretenimento, alienação, tênis (tanto como esporte como atividade metafísica), comunicação, liberdade, amor. Tudo. TUDO. Tudo no maior e mais maravilhoso exemplo do pós-modernismo e maximalismo literário que já existiu.

É necessário ter um pouco de paciência (e perseverança) para desvendar aquela sociedade estranha, os anos subsidiados, a mentalidade das crianças, a cor azul (citada incessantemente durante o livro inteiro). Mas aos poucos você vai entendendo e sendo absorvido pela trama. E percebendo que nada ali é gratuito. Todos os elementos básicos da história simbolizam algo e se repetem ciclicamente, numa narrativa repleta de situações originais e absurdas, uma mais louca que a outra. É um livro que se supera um parágrafo de cada vez. Lembrando que a melhor parte do livro jamais foi realmente escrita. Você acha que não tem um final, mas tem sim. Há dicas que levam ao único final possível. E ele se desdobra conseguindo, como desde o início, superar a si mesmo. E pior: Quando você relê o início, percebe que este é um pedaço do fim, uma confirmação desse final. O prólogo é o epílogo? Ainda não consegui decidir. Enfim, as respostas finais não foram escritas, mas elas existem, elegantemente.

Não tem como encaixar numa rapidinha a grandiosidade que esse livro é. Não se deixe enganar pelas 1200 páginas. É um desafio prazerosíssimo para quem tem a perseverança de ultrapassar as primeiras 250. (E o capítulo da Wardine). Se joga, amiga!

Enfim, eu não vou recomendar esse livro, eu vou implorar para que todos o leiam. Isso não é literatura básica pra fugir da sua realidade diária. Isso significa salvar vidas, conversar com Deus. Esse livro é a nossa resposta. Davi Faustão Valácio sabia a resposta!
É a nossa única esperança como seres humanos.
LEIA!

Graça Infinita explodiu o Medidor de Gabos com aquele capítulo do Eskhaton. E, mas, então, não sobrou nada.

DFWMEDIDOR

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Graça Infinita - David Foster Wallace
1144 páginas - Companhia das Letras

 

Notas e Ajudinhas:

- O fim?
Se você já leu, aqui tem um spoiler bacana pra ajudar a entender o final.
MAS ESTEJA AVISADO: ESSE SPOILER PODE ACABAR COM TODA A GRAÇA DE LER GI. 
Conselho: Relaxa, cara. Tome seu tempo. Só leia. Vai valer a pena. <3

- Como Ler?
A edição da Companhia das Letras é maravilhosa (In Galindo we trust), mas ela é bem frágil, não foi feita pra aguentar um dia sequer em uma mochila.
Conselho: Baixe a versão epub e leia no celular. Ela vai te ajudar com as notas. Ao chegar em casa depois de um dia de leitura, atualize o marca-páginas no livro físico. É uma mão na roda para as notas, já que até elas tem notas. Isso não é gratuito, é uma estratégia literária utilizada para afastar o leitor da empatia com o personagem (o tempo inteiro você é lembrado de que está mesmo lendo um mero livro). O resultado é surpreendente. Sério.
Conselho 2: NÃO PULE AS NOTAS (Elas são mais do que essenciais. Elas são uma parte do livro per se).

- Leitura Adicional?
Se para você, como para mim, 1144 páginas não foi o suficiente, recomendo o livro Elegant Complexity, que você pode comprar aqui e baixar aqui. É um estudo comentado (o melhor dentre os vários dicionários de Graça Infinita espalhados na internet) que analisa toda a obra e revela todos os easter eggs também.
Chuchu beleza.