Mason & Dixon – Rapidinhas #27

Mason & Dixon – Rapidinhas #27

“’Dagga tem muitos mistérios’, replica Dixon.
Sendo um deles que falar sobre as cousas, ainda que não as cause, causa assim mesmo algo, – o que é quase o mesmo, ainda que não chegue a sê-lo deveras. A menos que se possa fumar uma Batata.”

O astrônomo Charles Mason se une ao agrimensor Jeremiah Dixon na odisseica jornada de traçar a Linha Mason-Dixon americana, numa época em que a América “recém-descoberta” ainda pulula de índios, guerras e magia.

Mason & Dixon foi o maior desafio literário do ano até agora. Não apenas pelo seu tamanho, mas também pela maneira complexa em que foi escrito. A trama se passa por volta do século XVIII e Pynchon, que não dá ponto sem nó, escreveu o livro como ele teria sido rebuscantemente composto se o fosse na época. Os parágrafos são extensos e pesados e exigem total atenção, fazendo com que fique fácil se pegar relendo a mesma frase ou então se perdendo e tendo que começar o parágrafo do começo, algo BEM desestimulante pra um livro de 850 páginas. É interessante contrastar isso com o fato de que algumas passagens MERECEM ser relidas de tão geniais, infelizmente raras, mas não desperdiçadas, nenhuma delas.

Sendo um romance de época, exclui-se (ou melhor, diminui-se bem) uma das piores coisas de Pynchon: As personagens femininas caricatamente ninfomaníacas (machista mesmo). Dessa vez Pynchon trabalha de maneira surpreendentemente oposta: Lidando com uma época que pulula de escravos e dominada pela religião, ele passeia muito bem pela questão do preconceito, com passagens justas e ótimas, ora denunciando um relacionamento violentíssimo que acaba “bem”, ora pondo a personagem de Dixon a chicotear um escravocrata num leilão de escravos, tudo miraculosamente sem fugir do ponto de vista da época, até citando a questão do ódio.

Esteja avisado: Terminar esse livro é bem difícil. Ele perde o ritmo ao entrar na metade, ficando bem chato mesmo e finalizá-lo torna-se uma tarefa terrível, mas aos que persistem há uma recompensa: As últimas 250 páginas são sensacionais. À medida em que os personagens se embrenham nas florestas, eles entram em contato com a fantasia mágica que está morrendo no mundo. Longe da globalização encontramos de cães falantes (quase extintos, já no século XVIII) à vegetais colossais (a passagem da beterrada gigante e dos trabalhadores que cavaram um túnel dentro dela é brilhante).

Pynchon tem esse poder de escrever um desenho animado do Pernalonga como se fosse algo sério e sabe fazer com que tenhamos a impressão de que ele realmente estava lá (detalhes como o pó das perucas flutuando contra raios de sol entrando pela janela, por exemplo), que tornam muito mais críveis as roupas, perucas e costumes daquele tempo, coisa que, nas aulas de história, eu achava quase impossíveis de imaginar.

Mas onde ele mais acerta, como de costume, é nos personagens improváveis e incríveis, como Dixon (um dos melhores personagens da literatura, sem dúvidas), Mason (e seus momentos de redenção antes e depois da viagem à América), a Pata Mecânica (que atinge poderes cósmicos fenomenais), Styg (que dorme com seu machado e sofre de castormorfose) e os encaixa na história do mundo de maneira TÃO crível, TÃO verdadeira. Sem contar que em meio à essa fantasia, as coisas realmente aconteceram: A Linha Mason-Dixon existe, assim como sua história e quase todos os “personagens” existiram.

Quase dois meses pra acabar esse monstro, porém eis que findas estão as suas 9.5/10 páginas.

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Mason & Dixon – Thomas Pynchon
846 páginas – Companhia das Letras

Alta Fidelidade – Rapidinhas #23

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“Só porque se trata de um relacionamento, de uma coisa sentimental, não quer dizer que não dê pra tomar decisões racionais a respeito. Às vezes é o que a gente precisa fazer, ou não chega a lugar nenhum. Aí é que está o meu erro. Ter permitido que o clima e os músculos do meu estômago e uma sensacional passagem de acordes num single dos Pretenders decidam por mim, e agora quero passar a decidir eu mesmo.”

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Os Detetives Selvagens – Rapidinhas #21

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Como traduzir o título? Sangre de Satén ou Sangre de raso? Levei mais de uma semana pensando nisso. Foi então que de repente desabou em cima de mim todo o horror a Paris, todo horror à língua francesa, à jovem poesia, à nossa condição  de metecos, à nossa triste e irremediável condição de sul-americanos perdidos na Europa, perdidos no mundo, e então soube que não iria poder continuar traduzindo Sangre de Satén ou Sangre de Raso, soube que iria terminar assassinando Bulteau em seu estúdio da rua de Téhéran e depois fugindo de Paris como um desesperado. De modo que decidi não levar a cabo essa empresa e, quando Ulisses foi embora (não me lembro exatamente quando), parei de frequentar para sempre os poetas franceses.

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