Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Rapidinhas #28

Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Rapidinhas #28

 “Crescer acontece quando você olha para trás e percebe que há coisas que gostaria de poder mudar.”

Clary Fray luta para reencontrar a mãe e desvendar seu passado, perdida num recém-descoberto submundo mágico de vampiros, lobisomens, feiticeiros, caçadores de demônios e a quase reencarnação literária do Sephiroth.

Seguindo um rumo bem ficção científica infanto-juvenil pós-Harry Potter, Cassandra Clare nos brinda com uma história extensa e cheia de rodeios, com uma cultura rica, porém mal-trabalhada. Ela te agarra pelo pescoço e não te dá tempo de respirar. Mal se termina o primeiro capítulo e você já conheceu cinco protagonistas. De repente a história te enche de informação sem parar e tem-se a impressão de que será assim até o fim. Pelo menos uns 10 capítulos do primeiro livro passeiam com os personagens para lá e para cá pra poder explicar pro leitor como o mundo funciona, quem foi quem na Clave e no Ciclo, o que é um portal, o que significa nephilim, stela, parabadai, etc… Sério, até o título, nada atraente para quem nunca leu nada da série, é uma bomba de informação. Mas nada é tão curioso quanto a força com que Cassandra faz isso: De repente era informação pra caralho e eu simplesmente lembrava de todas elas. Ué, funcionou? Sim! E muito bem.

A escrita é meio infantil no começo, mas ao mesmo tempo ela tem paixão, tipo fanfic. Foi só depois de terminar o primeiro volume que resolvi dar uma pesquisada na internet e descobri tudo. Não apenas Cassandra é uma ficwriter famosa, como também ela escreveu MUITA fanfiction de Harry Potter. (Fiquei pasmo quando descobri a Draco Dormiens). Esse estilo meio fanfic de escrever é bom e é ruim. Por um lado ele é facilmente desvendável (o paralelo Jace/Clary e Draco/Gina é tão óbvio), a escrita é sempre muito teen e nada profissional, as comparações são estranhas, os personagens adultos tem um comportamento adolescente e imaturo e muitas coisas são forçadas. Mas para melhor ou para pior, é um estilo de escrita. É o tipo de livro que eu posso passar horas citando os defeitos e poxa, li os dois volumes em uma semana e já estou na metade do terceiro. E com certeza lerei todos. Aliás, depois de passar o nervoso do primeiro livro aprovado, Cassandra encontra a mão de escritora e o seu caminho único, de forma que o segundo livro segue num estilo muito mais próprio e confiante, tornando a história muito mais gostosa.

Infelizmente a autora, como toda ficwriter, perde o foco da trama pra focar no que ela gostaria de ver. Pra que desviar a trama pra vampiros e lobisomens se a gente mal conhece os nephilim ainda? Cadê os outros demônios? Alguns personagens não tem conteúdo, nasceram apenas porque eles são estilosos demaaaais (oi, oi, Raphael? oi?). A personagem Isabelle é tão sem sal que eu publiquei essa resenha com o nome dela errado e tive que voltar pra editar, Alec é outro personagem que se está ou não em cena, é como se não estivesse.

Pontos positivos: Bater toda a fantasia do livro com a cultura pop, como citar animes sem ofender ninguém, por exemplo. Dar mais personalidade ao Jace do que o Draco Malfoy teria. A química entre Clary e Jace é muito boa e isso facilita bons diálogos. Simon é um personagem ótimo, mas infelizmente só desabrocha no segundo livro. O desfecho do primeiro livro foi surpreendente e o do segundo manteve o hype com um gancho ótimo pro terceiro.

Nem preciso dizer que os editores não levaram Cassandra Clare à sério. Com um título gigantesco e até estranho, uma arte de capa deplorável  (quem leva a sério um livro com um tórax masculino na capa?) e um tom de voz na edição que me pareceu extremamente “esse é um livro exclusivamente para meninas”. Afinal, por que o abdômem do Jace tá na capa do primeiro livro se a protagonista é a Clary? Aliás, a capa é holográfica, parece um card pokémon. Deplorável. (Nem vou começar a xingar a capa do spin off As Crônicas de Bane, que comete o crime de estampar um modelo com rosto, matando de todas as formas a maneira como o leitor imagina o personagem, seja ele bonito ou não). E O COMENTÁRIO NA CAPA DA STEPHENIE MEYER FOI DE CAGAR! Nunca vi um livro TÃO mal produzido. Uma simples capa preta com “CIDADE DOS OSSOS” em Garamond seria melhor. Felizmente uma vez por década a Record lança essa ótima edição de colecionador que engloba os livros de dois em dois, embora não seja menos espalhafatosa. Vamos ver quantos anos vai demorar pra ela lançar o terceiro.

Acho que o resumo é esse: Posso citar mil defeitos, mas como eu sou uma fangirl ridícula, quero ler todos. Vai pra minha pilha de guilty pleasures, junto com High School Musical e Percy Jackson. Deu pra entender né? Nota 8, por ter conseguido me prender tão facilmente.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Cassandra Clare
677 páginas – Galera Record

Para Sempre Ninão – OGS #151

Para Sempre Ninão – OGS #151

Com drama, humor, brisas ninônicas e um cachorro abrindo seu coração, Para sempre Ninão foi uma surpresa maravilhosa de trabalhar (e ler).

Sinopse: Agora em forma de livro, com fotos coloridas e histórias inéditas, é hora de conhecer mais aventuras ninônicas!

Ninão e Pai do Ninão tinham uma relação de magnetismo puro na frente e atrás das câmeras, se tornando uma das duplas de maior sucesso na internet, com seus vídeos irreverentes e diferentes de tudo antes visto, cheios de fantasias e enredos mirabolantes ninônicos. Com relatos desses dois na vida real, vivências, detalhes e fotografias inéditas dessa conexão única e cativante, conheça toda a Família Ninônica, a rotina por trás das câmeras e detalhes de como foi essa amizade verdadeira que encantou tantos. Tudo isso contado pelo próprio protagonista, que finalmente ganha uma voz como sempre sonhou: Ninão. (Sinopse da contracapa)

Bem, para quem não sabe sou assistente editorial na Coletivo Editorial, aí que o projeto do Ninão veio pra gente e foi uma experiência lindona trabalhar junto nesse livro. 🙂 Acabei lendo, claro, e achamos legal trazer a resenha aqui pro Castelo pra já dar aquele parecer maroto de Para Sempre Ninão.

“Nossa, Camila, livro de youtuber? Justo você?”

Pior que é, pessoa.

Mas é aquela coisa, livros de biografia que tem bastante a falar sempre valem a leitura. 🙂 E Para sempre Ninão foi uma agradável surpresa nesse sentido.

Quando tudo conspirava para um final melancólico, vejo aquele rapaz de olhar profundo voltar ao local com a intenção de adotar uma de minhas irmãs. Foi quando lhe informaram que eu tinha sido rejeitado e que poderia ficar comigo. Meu coração disparou.

Para sempre Ninão, p. 14

capa de para sempre ninãoO ponto chave aqui é que quem tem a voz é Ninão. Um Ninão Rodriguiano, pra dizer a verdade, com todas as frustrações, sentimentos, aquela magia do cotidiano e a história de vida dos dois que foi possível unir nas páginas. Ninão te conta o que sentiu, o que viveu, as discrepâncias entre a visão humana e a canina.

O livro é como uma catarse do Rodrigo depois da morte do Ninão em outubro de 2016. Como uma forma de trabalhar o luto e contar esse outro lado da versão dos fatos, o lado ninônico mesmo.

 A união entre Ninão e seu Pai foi magnetismo instantâneo e criou uma das duplas de maior sucesso na internet. Diferente de tudo visto. Um estilo de produzir conteúdo que surpreendia pela simplicidade e força com que atraía e cativava as pessoas.

Para sempre Ninão, p. 7

É estranha essa relação que criamos com coisas que gostamos. Rola uma intimidade – às vezes até uma sensação de posse – em cima dessas criações. É estranho ver como a pessoa funciona na vida privada dela, quando vemos apenas flashes do cotidiano (ou vídeos e fotos que querem ser mostradas). O interessante do livro foi essa compilação enorme de fatos e situações que dimensionam o lado humano disso tudo e as outras faces que pessoas que achamos conhecer tem.

Quando cheguei ao local encontrei uma cena insólita. Rodrigo só de pijamas, com meias furadas e um chinelo de dedo dos mais gastos, daqueles que quando arrebenta se faz uma gambiarra para continuar usando. Bem, lá estava ele sentado com todos os meus filhos no colo e enquanto o observo ele começa a uivar. Descubro que na verdade o lobo idoso era ele e, descrente de tudo aquilo, sentei e só fiquei observando.

Para sempre Ninão, p. 68

A visão de Rodrigo, e consequentemente a de Ninão, perpassa os preconceitos, as estruturas de sociedade em que creem, e o que acreditam ser objetivos de discussão. Acaba sendo mais do que uma biografia sobre um cachorro youtuber, e acertando mais em uma forma de falar sobre assuntos que não foram falados por conta da postura irreverente e de humor do canal. Isso com uma linguagem diferente do que se espera de alguém que faz vídeos de humor piradíssimo (ou talvez nada além do esperado, hehe).

Enquanto eu revisava o livro, me perguntaram se era algo para chorar. Bem… devo dizer que sim. Já é uma porrada logo no começo e outra pelo final. Ainda mais se a pessoa ‘conviveu’ com Ninão durante esses anos de vídeos. Foi bem difícil revisar certos trechos na sala com várias pessoas.

Existe uma beleza reconfortante em admirar tudo isso quando se está em boa companhia. Juntos, eu e Rodrigo éramos a fortaleza um do outro, o final épico de um filme, o querosene que dissolve a tinta grudada nas mãos após a pintura dos muros de nossa existência.

Para sempre Ninão, p. 180

Você constrói uma relação com toda a família ninônica ao longo do livro, numa leitura super fluida. Devo admitir que foi uma surpresa principalmente pela qualidade da escrita (olha a Camila desconstruindo pré-conceitos de livro de youtuber haha), que engaja sem subestimar palavras, termos, histórias. Ele é um livro que se fecha muito bem e vai ser uma catarse boa pra quem acompanhou toda a jornada ninônica e ainda acompanha nesses novos momentos e membros da família.

Ele tem um pouco de tudo, o humor do canal, drama, frustração, brisas louquíssimas do passado e do futuro, fotos, e todo o caos e beleza que pode ter dentro de uma pessoa e um cão.

Para Sempre Ninão
Autor: Rodrigo Coelho (e Ninão)
Editora: Coletivo Editorial
Páginas: 224
Link do Skoob

 

O livro está na pré-venda atualmente, e tem entrega prevista a partir do dia 03 de julho. Pra quem quiser comprar corre aqui na Loja da Coletivo Editorial. Tem bastante foto e fizemos cards em acetato pra gerar uma interação xuxuzíssima. Bom Ninão pra vocês. ^^

cards do para sempre ninão

Dá pra montar os cards e vestir o Ninão na própria orelha do livro. 🙂

cards do para sempre ninão

Assim ó ^^

(Lembrando que sempre tem aquela fotinha marota no nosso Insta com Jovem Link)

Mason & Dixon – Rapidinhas #27

Mason & Dixon – Rapidinhas #27

“’Dagga tem muitos mistérios’, replica Dixon.
Sendo um deles que falar sobre as cousas, ainda que não as cause, causa assim mesmo algo, – o que é quase o mesmo, ainda que não chegue a sê-lo deveras. A menos que se possa fumar uma Batata.”

O astrônomo Charles Mason se une ao agrimensor Jeremiah Dixon na odisseica jornada de traçar a Linha Mason-Dixon americana, numa época em que a América “recém-descoberta” ainda pulula de índios, guerras e magia.

Mason & Dixon foi o maior desafio literário do ano até agora. Não apenas pelo seu tamanho, mas também pela maneira complexa em que foi escrito. A trama se passa por volta do século XVIII e Pynchon, que não dá ponto sem nó, escreveu o livro como ele teria sido rebuscantemente composto se o fosse na época. Os parágrafos são extensos e pesados e exigem total atenção, fazendo com que fique fácil se pegar relendo a mesma frase ou então se perdendo e tendo que começar o parágrafo do começo, algo BEM desestimulante pra um livro de 850 páginas. É interessante contrastar isso com o fato de que algumas passagens MERECEM ser relidas de tão geniais, infelizmente raras, mas não desperdiçadas, nenhuma delas.

Sendo um romance de época, exclui-se (ou melhor, diminui-se bem) uma das piores coisas de Pynchon: As personagens femininas caricatamente ninfomaníacas (machista mesmo). Dessa vez Pynchon trabalha de maneira surpreendentemente oposta: Lidando com uma época que pulula de escravos e dominada pela religião, ele passeia muito bem pela questão do preconceito, com passagens justas e ótimas, ora denunciando um relacionamento violentíssimo que acaba “bem”, ora pondo a personagem de Dixon a chicotear um escravocrata num leilão de escravos, tudo miraculosamente sem fugir do ponto de vista da época, até citando a questão do ódio.

Esteja avisado: Terminar esse livro é bem difícil. Ele perde o ritmo ao entrar na metade, ficando bem chato mesmo e finalizá-lo torna-se uma tarefa terrível, mas aos que persistem há uma recompensa: As últimas 250 páginas são sensacionais. À medida em que os personagens se embrenham nas florestas, eles entram em contato com a fantasia mágica que está morrendo no mundo. Longe da globalização encontramos de cães falantes (quase extintos, já no século XVIII) à vegetais colossais (a passagem da beterrada gigante e dos trabalhadores que cavaram um túnel dentro dela é brilhante).

Pynchon tem esse poder de escrever um desenho animado do Pernalonga como se fosse algo sério e sabe fazer com que tenhamos a impressão de que ele realmente estava lá (detalhes como o pó das perucas flutuando contra raios de sol entrando pela janela, por exemplo), que tornam muito mais críveis as roupas, perucas e costumes daquele tempo, coisa que, nas aulas de história, eu achava quase impossíveis de imaginar.

Mas onde ele mais acerta, como de costume, é nos personagens improváveis e incríveis, como Dixon (um dos melhores personagens da literatura, sem dúvidas), Mason (e seus momentos de redenção antes e depois da viagem à América), a Pata Mecânica (que atinge poderes cósmicos fenomenais), Styg (que dorme com seu machado e sofre de castormorfose) e os encaixa na história do mundo de maneira TÃO crível, TÃO verdadeira. Sem contar que em meio à essa fantasia, as coisas realmente aconteceram: A Linha Mason-Dixon existe, assim como sua história e quase todos os “personagens” existiram.

Quase dois meses pra acabar esse monstro, porém eis que findas estão as suas 9.5/10 páginas.

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Mason & Dixon – Thomas Pynchon
846 páginas – Companhia das Letras

Bonsai – Rapidinhas #26

Bonsai – Rapidinhas #26

“Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de o resto.”

A excelente história de amor entre Julio e Emilia, dois estudantes que se conhecem e iniciam um relacionamento que se sustenta em torno dos livros que leram e não leram. Eles tecem a sua história baseados em conceitos abstratos, cientes de que ela será uma história breve.

Bonsai foi uma surpresa maravilhosa. Em uma narrativa coerente com a realidade, Alejandro Zambra passeia pelo mundo dos relacionamentos em trânsito, da fugacidade da vida, das relações com identidade cultural e nacional.

A obra já cativa logo no primeiro parágrafo ao apresentar um spoiler pesadíssimo sobre o final, que não apenas estabelece o ritmo rápido da leitura a porvir, mas também que já dá a dica ao leitor: Eis uma personagem a qual você não vai querer se apegar (obviamente você se apega). Esse ritmo estabelece uma leitura rápida, e como isso faz parte do seu conceito, o livrinho (apenas 96 páginas) acaba em poucas horas. Temos a impressão de que Zambra, em sua estreia no mundo literário, cuidou com carinho da estrutura para que esse conceito não se perdesse, embora a breve mudança de foco para os personagens secundários eventualmente contribuísse para diminuir a empolgação inicial que deu o primeiro gás à leitura.

As referências literárias de Emilia e Julio são ótimas (os dois são estudantes de letras e seu relacionamento é pautado em livros). Repleto de um simbolismo claro e apaixonante esse é um daqueles livros em que o importante não é o desfecho, e sim o seu conteúdo por inteiro. O desenrolar da história serve como um delicioso pano de fundo para a reflexões do autor sobre os relacionamentos amorosos, solidão, amor e vida. Zambra vai além: O ritmo e estilo de vida dos personagens e também dos seus relacionamentos é um espelho bastante fiel da realidade, do jovem adulto atual preso em sua bolha universitária e em busca de emprego até a superioridade intelectual do (tão frágil) graduando e graduado. Não é um livro que te ensina. É um livro com o qual você se identifica.

Um livro feito pra pessoas que leem e se relacionam, mas acima de tudo, que leem, afinal, os protagonistas são “jovens tristes que leem romances juntos, que acordam com livros perdidos entre as cobertas”. A vida e a literatura se confundem de todas as formas quando você percebe, não apenas que essa é uma história fácil de se identificar, mas também que Bonsai foi escrito por um dos personagens. Tudo isso contribui para que esse livrinho seja extremamente tocante, em toda a sua fugacidade. Essa breve mistura de Medianeras com La La Land levou um belo 8 Gabos e meio.

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Bonsai – Alejandro Zambra
96 páginas – Cosac Naify