Here Comes The Sun – OGS #153

Here Comes The Sun – OGS #153

Here Comes the Sun conseguiu me apresentar os Beatles, George Harrison e uma busca divina, tudo em pouco mais de 400 páginas apaixonantes.

Sinopse: Uma história como nenhuma outra: em meio à fama avassaladora dos Beatles, a busca por Deus. Nesta biografia íntima, o historiador Joshua M. Greene fornece um relato comovente de uma das pessoas mais extraordinárias do século XX. Em “Here Comes the Sun”, a jornada espiritual e musical de George Harrison é revelada em detalhes, sem o imediatismo de outras publicações sobre ele ou os Beatles. Como seus companheiros de banda, Harrison escapou das ruas proletárias de Liverpool, sobreviveu a uma dura aprendizagem em boates underground e se tornou um dos mais famosos e bem-sucedidos artistas da história. Porém, a desilusão com o preço e com as recompensas da fama resultaram na magnífica jornada que transformaria sua música e redefiniria o resto de sua vida.

À caráter lendo Here Comes the Sun (Gracias especiais, Kripa, pela roupa xuxu!).

Nunca fui uma fã inveterada de Beatles, nem ouvi muito, nem li muito. Então comecei a ler essa biografia como alguém verdíssima no mundo beatlemaníaco. haha

“Essa é a história de um homem que renunciou a uma das mais espetaculares carreiras da história do entretenimento pela meta de ver Deus face a face e que obteve um êxito maior do que as suas mais altas expectativas. A trilha sonora de sua jornada espiritual começa com as explosões de uma batalha e se encerra 58 anos depois, com as harmonias da paz eterna.”
Here Comes The Sun, Joshua M. Greene, p. 12-13

Greene escreve de forma sucinta, clara e bem objetiva. Tanto que menciona logo no início do livro que assim o fez por conta do próprio Harrison ter sido assim em vida (a parte boa de ler uma biografia é que não é exatamente um spoiler saber se a pessoa está viva ou não ou os elementos da vida dela haha), eu particularmente gostei dele querer refletir a própria personalidade do biografado no estilo do livro.

Não sabendo nada sobre os Beatles, devo dizer que fiquei diretamente influenciada pelos relatos e acontecimentos descritos no livro (ou seja, não entendo como as pessoas são capazes de gostar do John Lennon [olha a opinião impopular passando na sua frente], e tenho certeza de que Ringo é como um NPC de um jogo de videogame), e surpresa de como a vida dos 4 Beatles é simplesmente um filme. Tem ação, reviravoltas que seriam extramente clichês (sucesso rápido e instantâneo, fama que vai e volta do nada; fãs desmaiando enlouquecidas), em 2/3 anos eles já eram OS Beatles. Não faz sentido. Mas simplesmente é.

“A química entre os integrantes da banda era excitante, engraçada, contagiante, e os shows em outros lugares aumentavam. Ainda assim, apesar da crescente popularidade dos Beatles, nenhum empresário aparecia, a imprensa não cobria suas performances e nada indicava que eles iriam além dos limites daquele pequeno porão.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 50

Não sei se é possível entender a beatlemania como fenômeno que foi, como essa exceção maluca que até hoje ainda causa fervor ressurgindo do limbo de vez em quando (se bem que nunca foi verdadeiramente para o limbo… diria que é como lava saindo do vulcão, ela solidifica quando esfria, mas é só dar um toquinho que tchanã, quentíssima por dentro). Mas deu pra dar uma luz descrevendo como era o mundo dessa época, e o que os Beatles estavam significando em tudo aquilo.

“Os adultos não conseguiam oferecer uma explicação sobre o porquê do mundo estar tão turbulento e confuso, deixando os jovens com a tarefa de definirem para si mesmos quem eles eram e em que acreditavam.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 73

O livro prova que você não precisa de firula pra gostar de alguém, antes mesmo de chegar ao final do livro, você já se sente como alguém que viveu tudo aquilo com Harrison, que entende os tropeços, as babaquices, o crescimento,  bom humor, a generosidade e a bondade inerente. E também as frustrações e prisão que era a vida de um Beatle.

“Até então, George sentia poucos inconvenientes no sucesso, mas um em particular estava começando a preocupá-lo. “O que me perturba”, disse no mês junho à revista juvenil Rave, “é que às vezes as pessoas nos tratam como se fôssemos objetos e não seres humanos”.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 76

O encontro e a posterior busca de George por Deus é simplesmente apaixonante. É como achar a função da sua vida e poder seguir em direção à ela (isso não significa que dúvidas sobre o caminho não tenham existido, mas Krishna realmente foi colocando as pessoas certas no caminho dele…). O sentimento de ter de contagiar as pessoas com esse mesmo fervor também pôde ser sentido em todas as músicas, shows, atitudes posteriores a esse encontro.

“George certa vez descreveu a si mesmo como alguém que chegara ao cume do mundo material, encontrando todas as pessoas que valiam a pena conhecer e fazendo tudo o que valia a pena ser feito, apenas para descobrir que havia muito mais do outro lado.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 88

Mais fotogênico que Jovem Link jamais.

Aliás, taí uma questão maravilhosa: ler o livro ouvindo as músicas citadas foi ótimo. Como ele perpassa a produção musical dele (que, aliás, não é possível separar da pessoa, afinal foi a forma de tentar alcançar Deus), a opinião de terceiros, as músicas no topo das paradas, tudo, é possível achar online, então foi uma belezura. Deu pra ouvir tanto um tico de Beatles quando bastante da produção solo dele (Govinda ainda dá arrepios, e My Sweet Lord é realmente uma lindeza). E lógico, que ver mais sobre Ravi Shankar, mesmo que de pouquinhos, foi lindo (o álbum Passages do Ravi ainda é meu preferido).

Conhecer George pelas músicas dele é conhecer algo intrínseco a ele.

Agora, em relação à tradução, eu senti que por vezes ela acabou sendo muito literal, algumas coisas só fazendo sentido porque eu conhecia algumas expressões em inglês. E por vezes senti que a progressão da cronologia dava umas escapadas, Greene começa um parágrafo falando, por exemplo, de 1977, e de repente pula pra 1992, ou 86… e você fica sem saber se aquela informação é pertencente a alguma dessas datas ou nenhuma delas. Isso começa acontecer depois da metade do livro, te deixando meio confuso.

Mesmo com as falhas que senti, o livro não sai prejudicado. Sendo um retrato apaixonante da busca de um homem por Deus.

“Talvez fosse uma continuação de algo da história”, disse. Nós nos despedimos. Conectar-se com outro ser humano que apreciava o mistério das coisas era um presente, e concordamos em manter contato. “Ou talvez”, ele falou enquanto meu filho e eu parávamos em frente à porta, “aquilo que George começou talvez seja simplesmente bondade sem causa”.
Isso soava correto.
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 396

Here Comes the Sun
Autor: Joshua M. Greene
Editora: Coletivo Editorial
Páginas: 414
Link do Skoob

 

PS.: Uma coisa que achei excelente foi ver que enquanto tudo isso estava acontecendo, Radanath Swami também estava tentando chegar na Índia! Para quem não sabe do que estou falando, é uma boa dar aquela relembrada na resenha de A Caminho de Casa, pra conhecer outro lado da Índia, um lado vivido pelo (até então) anônimo Swami. Dá pra ter noção de duas facetas históricas da década de 60/70.

Ps.²: Tiramos as fotos para essa resenha lá em Nova Gokula! Uma fazenda hare que recomendo visitar quem puder. 🙂 Direto tem festivais belezuras por lá. E claro que você sempre confere nossas fotos de resenha lá no nosso Instagram e os trechos selecionados do livro no Tumblr.

 

Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Rapidinhas #31

Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Rapidinhas #31

“Somos todos parte do que nos lembramos. Guardamos em nós as esperanças e os medos daqueles que nos amam. Contanto que exista amor e lembrança, não existe perda de fato.”

A trupe de Clary e Jace se reúne uma última vez para enfrentar Sebastian e pôr um ponto final numa história que já devia ter acabado três livros atrás.

É compreensível que Cassandra Clare queira continuar se aventurando no universo que ela criou com mais livros, mas é inadmissível que metade desse volume sejam ganchos para uma trilogia paralela. Na esperança de fidelizar ainda mais os seus leitores, Cidade do Fogo Celestial divide boa parte das suas 500 páginas com personagens da série As Peças Infernais. Se ao menos isso fosse feito de maneira empolgante, mas não, todas as (muitas) partes em que Emma aparecia eram extremamente chatas e repetitivas. Se Clary gasta todo o seu tempo de personagem vivo fantasiando com o dourado dos cabelos de Jace, Emma é uma que gasta todos os seus parágrafos repetindo como Julian é o melhor amigo dela. E ela o faz do primeiro capítulo até o último.

O fato do texto ser extremamente repetitivo é mais um dos fatores para que a leitura se torne desnecessariamente longa. Parece que o livro não passou por uma edição porque pelo menos duzentas páginas poderiam ter sido facilmente cortadas, especialmente (como de costume) no epílogo. Cassandra consegue passar adiante o clima de “tudo está acabando, qualquer um pode morrer”, porém não consegue evitar que o fantasma da Nova Trilogia de Star Wars imprima sobre sua história um sentimento permanente de que as coisas fugiram do controle dela: O personagem Sebastian que dera um show no livro anterior, por exemplo, reduziu-se a um dos vilões mais patéticos e sem propósitos que já vi. A aparição do pai de Magnus, que tinha tudo para ser boa, acabou sendo pouco convincente: O vilão falava demais, com uma casualidade fingida.

Um dos pontos positivos que era a crescente tensão sexual e o flerte com as armas perdeu-se totalmente nessa história, infelizmente, e eu realmente não sei como ela conseguiu fazer isso com um plot onde os protagonistas perdem a virgindade numa caverna no meio do inferno.

Na vã tentativa de aprofundar mais ainda o personagem Alec, Cassandra acaba dando a entender que nunca na vida sequer conversou com um homossexual. Ao invés de interessante, Alec acaba se tornando um alívio cômico incômodo. Clary continua uma ótima personagem e Jace também, mas Jace perde o protagonismo um pouco aqui e com isso vão-se para o ralo os bons diálogos que os dois tinham. Acredito que o único ponto positivo mesmo seja a atmosfera video-gamística de last dungeon que permeia a segunda parte antes dela ficar um saco.

É importante ressaltar que todas as piadas e trocadilhos foram infantis e sem graça nenhuma e também que a personagem Isabelle continua um porre nada convincente. O terceiro livro, o que encerra a primeira trilogia, é sem sombra de dúvidas vastamente superior e é com muita tristeza que encerro essa resenha com uma nota baixíssima, mas com boas lembranças dos momentos incríveis que rolaram nos livros que vieram antes desse.

Saiba mais no Skoob
Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Cassandra Clare
532 páginas – Galera Record

O Livro Amarelo do Terminal – OGS #152

O Livro Amarelo do Terminal – OGS #152

Sinopse: A escritora Vanessa Barbara faz sua estréia editorial com um livro-reportagem sobre a rodoviária do Tietê, em São Paulo. Primeira obra jornalística no catálogo da Cosac Naify, O livro amarelo do Terminal empreende uma viagem singular ao que seria uma versão condensada do mundo , como diz João Moreira Salles na orelha da edição. Valendo-se de recursos narrativos variados, que vão da reportagem clássica ao humor nonsense, o olhar da escritora pinça, em meio ao tumulto, os tipos que passam por lá todos os dias – vendedores, crianças, velhinhas, surfistas -, e registra uma história oral do local a partir dos fragmentos de conversas colhidas ao acaso. Esta polifonia aparece também no projeto gráfico do livro. Suas páginas amarelas, de gramatura mais fina, brincam com a transparência e a sobreposição parcial das letras. Já os capítulos de cunho mais histórico são impressos em papel semelhante ao carbono, como os dos bilhetes de ônibus. (Sinopse do Skoob)

E nesse limbo de leitura em que entrei devido à correria dos últimos dias, consegui sentar pra ler um livro que estava na lista há tempos: O livro amarelo do terminal. Me recomendaram quando estava no meio do mestrado, “é uma super aula de como descrever o campo, Camila!”. Mas os tempos passaram e não consegui ler haha

“A rodoviária do Tietê é uma cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas.”

O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 14.

Essas jogadas com a transparência do papel, meu bom chessus. <3

O livro vai fazer esse processo de mapear e descobrir a rodoviária em todos seus aspectos, do ponto de vista das pessoas que trabalham nela. Pessoal da limpeza, da segurança, carregadores, os passageiros, motoristas, galera das lojas, pessoal que não vemos quando passamos por lá… E é impressionante a sutileza e as escolhas dos termos que a autora faz pra comparar as situações e histórias que ouve.

“- 49 – diz um senhor, de repente, aproximando-se de Cíntia.
Ela nem pensa. Olha para ele e apenas retruca, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
– Primeiro corredor à esquerda, no final.
– Ah, obrigado.
É sempre bom saber como reagir quando alguém chega de súbito e diz: “49”. Anote aí a resposta: primeiro corredor à esquerda. Pode acontecer a qualquer momento. E em qualquer lugar.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 35

Aliás, quando a gente realmente para pra ouvir as histórias das pessoas descobre que não conhece ninguém nem nada sobre a vida. A variedade de opiniões, de histórias de vida, de sinapses estranhas que o cérebro parece fazer tiram o aspecto de massa e de grupo. Cada um tem uma vida, uma família, um histórico e opiniões.

“Rosângela conversa com as pessoas sem rosto da rodoviária. Olha nos olhos de cada uma e ouve, com atenção, o que têm a dizer. Lembra-se de muitas delas, sabe quais são seus nomes e suas histórias. Dá um exemplo de relações públicas até para os altos funcionários da Socicam.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 46

E começa a odisseia por todos os telefones em que empurraram a pesquisadora…

O livro vai sendo separado por capítulos que dividem a história de cada um e os pedaços da rodoviária, tem um capítulo inteiro, por exemplo, que é a autora tentando falar com quem tem acesso aos contratos de licitação (o melhor é que ela já abre com a lei que diz que os documentos públicos devem ser… bem, públicos), e é passada de número em número, de ramal em ramal, até finalmente falarem “mas, moça, é público, mas é privado”. HAHAHA (rindo, porém, que drama, senhores e senhoras).

“Quando, no telefone principal, a chamada vem do balcão de informações, é provável que se trate de um PA – “Eu não sei a tradução, mas quer dizer que tem gente querendo anunciar um nome”. Ou então um AAU: “Que a tradução eu também não sei, mas é quando tem que chamar um FT para ajudar usuário”. Sim, a comunicação é feita em siglas obscuras, de sentido vago, mas que todos sabem “mais ou menos” o que querem dizer.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 85

Fiquei simplesmente apaixonada pela dose de sarcasmo e ironia extremamente sutis que ela usa. Seja quando a relações públicas do metrô lhe diz que não pode entrevistar as pessoas (porque vai que elas falam alguma coisa errada) e ela apenas escreve que já está lá há mais de 6 meses entrevistando e bem… não lhe importa. HAHA É simplesmente maravilhoso. E ainda por cima transcreve as conversas que teve com ela:

“- Escuta, mas proibir os funcionários de falar não é errado? E a liberdade de expressão?
Ela dá risada. Ah, essas crianças. Nunca entendem.
– Não, não é isso. A gente apenas instrui o funcionário, só porque ele pode dizer algo errado, aí prejudica a empresa. Não sei em termos de jornalismo – não entendo nada de jornalismo, eu faço Relações Públicas -, mas eu estou aqui na Socicam preocupada só com uma coisa…
– … a segurança dos usuários, eu sei, mas…
– Não, não! Quer dizer, a segurança também, mas estou preocupada com a imagem. Então tenho que prestar atenção no que as pessoas falam para a imprensa, no que vai dar no jornal. Não pode pegar mal.”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 127

Aí a delicadeza do sarcasmo, se fosse entrevistar exatamente apenas e como permitem, eram mais fácil ter usado esse gerador automático de reportagens.

Você se apega a todos os funcionários do metrô, às histórias de vida dos passageiros, mesmo que rápidas, te fazem querer começar a procurar freiras com pranchas de surfe pra bater um papo, ou ir perguntar pela Rosângela, pelo Hugo da Le Postiche, pelo carregador número 101, mas que provavelmente não estarão lá hoje. Estarão vivendo suas vidas em outros locais e com mais histórias para contar.

Essa leitura foi realmente uma lição lindona de como fazer uma pesquisa de campo, deu a mesma sensação de quando fiz a do mestrado, e fui conhecendo as camadas de cada um, as complexidades, as histórias estranhas de alguém que seria só mais uma pessoa se você não tivesse parado e conversado com ela. Uma desmassificação das pessoas e dos lugares.

Os elementos que ela nota, a possibilidade de desconstrução dentro do projeto gráfico do livro (eu poderia ficar horas só elogiando isso, aliás. Tipografia, papel, as propagandas, os relatos das origens, aiai…), tudo adicionou em um livro com tanta personalidade que nem sei. Dá vontade de reescrever tudo, de imergir no campo que estudei com esse exemplo lindeza demais na mente.

Vou só terminar com um dos diálogos mais xuxus antes que escreva uma bíblia sobre esse livro que merecidamente ganhou um Jabuti:

“E foram andando, um velhinho de cada lado. Ele, contente à beça; a mulher, meio emburrada. Mas a birra não durou muito: logo estavam se desdobrando de rir quando, a certa altura, Rosângela perguntou se o casal tinha filhos.
– Não, moça – disse Cláudio. – Sabe o que é? É que a gente já casou com a validade vencida…”
O livro amarelo do terminal, Vanessa Bárbara, p. 105

Ps.: Tem váaarios trechos maravilhosos selecionados aqui no Tumblr 🙂 E também uma aventurosa divulgação da resenha no nosso Insta  😉

O Livro Amarelo do Terminal
Autora: Vanessa Bárbara
Editora: Cosac Naify
Páginas: 254
Link do Skoob

 

Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Rapidinhas #30

Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Rapidinhas #30

“Ao lado de Clary, Jace respirou fundo. Ela girou para olhar. Havia uma mancha vermelha se espalhando na frente da camisa dele. Jace tocou a mancha com a mão; os dedos voltaram sangrentos. Somos ligados. Se cortá-lo, eu sangro.”

Depois de derrotar Valentim, Clary  tem de lidar com seu irmão psicopata incestuoso cuja alma está ritualistica e bizarramente conectada à de Jace.

O fim do quarto livro foi um pouco forçado, mas deu o gancho necessário para toda uma nova aventura na série dos Instrumentos Mortais. Dessa vez Clary abandona praticamente tudo o que lhe resta para correr atrás do seu mozão e o faz de maneira verdadeira, não apenas uma desculpa para que as coisas aconteçam. Ponto positivo, apesar da nossa vontade de gritar “Não faz isso, mulher!” a cada péssima ideia/decisão.

As coisas tem um ritmo um pouco arrastado na primeira metade do livro porque tem personagens demais para a Cassandra mover no seu tabuleiro e isso causa uma certa irritação com algumas situações. Eventualmente acabamos por odiar a Maia e o Jordan porque são personagens cujas ações não nos interessam mais e eles ocupam bastante páginas. O resultado disso é que tem-se a impressão que os personagens passaram um mês na casa de Magnus (um dos personagem mais cativantes e menos aproveitados de toda a série). O subplot de Malec também enfraquece mas pelo menos as coisas acontecem: Há uma conclusão. Para melhor ou para pior, parece que o conceito do personagem Alec mudou da água pro vinho: ele passou tanto tempo com Clary que acabou pegando a mania de fazer burradas. Isabelle quase torna-se interessante. É Simon quem, como de costume, rouba as atenções da trama quando Clary não está.

Se há pouca atenção dada à construção dos personagens secundários, pelo menos os protagonistas brilham. É gostoso ver Clary como shadowhunter finalmente: Ela aprendeu a brigar, a sentir o calor da batalha, a não se curvar a ninguém. Sebastian não está muito convincente como vilão (nem o plano dele aliás, porque se fosse assim tão fácil criar um Cálice Infernal, o mundo já estaria destruído há séculos) porém tem seus momentos marcantes. A briga de Clary e Sebastian ganha um destaque especial por tornar-se uma briga muito doméstica e crua. E esse é um dos pontos altos do livro: Pela primeira vez em todos os volumes você realmente empatiza com a protagonista, porque é um momento crível, é um momento real.

Como era de se esperar, o quinto livro de uma série destina-se às pessoas que já conhecem não apenas a trama mas também a escritora. Acompanhar o aperfeiçoamento da escrita de Cassandra é uma coisa que só um fã que já engoliu as capas horríveis e está disposto a engolir mais uma pode entender. A série mantém-se fiel à ela mesma, assim como sua nota, 8.

PS: Todo o livro vale a pena pela excelente parte da Clary louca de LSD de fada numa balada em Praga.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Cassandra Clare
434 páginas – Galera Record

Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Rapidinhas #29

Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Rapidinhas #29

“As pessoas não nascem boas ou ruins. Talvez nasçam com tendências a um caminho ou outro, mas é a maneira como se vive a vida que importa. E as pessoas que conhecemos.”

Clary e Jace desvendam todos os segredos da conturbada família Morgenstern à medida que os planos de Valentim chegam à uma conclusão e aí tem um quarto livro.

Eis os volumes 3 e 4 da série Instrumentos Mortais. Parece que depois de um começo conturbado Cassandra Clare deu um jeito de fechar sua história. Ela finalmente decidiu o que eram demônios (bem diferentes dos demônios fantasiados de humanos dos primeiros capítulos do primeiro livro, né, fia?), decidiu que era hora de dar espaço pra história (cada vez melhor) de Simon e decidiu que nem tudo gira em torno de Jace, embora a opinião da protagonista seja essa. Clary continua extremamente cabeça dura e muitas vezes o plot caminha apenas por causa disso, o que não é necessariamente ruim. Como o único adulto que parece saber o que tá fazendo desde o começo é o Luke, a Clave, que é sumariamente composta de burraldos completamente incompetentes, continua atrapalhando tudo. O personagem Alec que finalmente começou a interessar um pouco no rumo do segundo livro, aqui assume uma trama sem graça com um desfecho bem bosta que arrasou com o Malec que a gente tanto queria e não resolveu nada (Parece que o negócio da imortalidade tá sendo realmente tratado no quinto e próximo livro, nunca vi um plot secundário tão arrastado, 4 livros pra fazer um almoço, isso não existe). O terceiro livro encerra 99% de todas as perguntas e apresenta a Idris de verdade: Os Nephilim existem, tem muita cultura, costumes e estilo e apresentam um conceito bem original quando comparados com os já batidos (mas sempre fascinantes) vampiros, lobisomens e fadas, fazendo com que tudo fique mais crível e coeso. Parece que o ponto alto dos livros até este é quando um personagem resolve tirar um capítulo pra contar o passado obscuro de todos os envolvidos. Sempre bom. Além disso, o final é bem empolgante e o ritmo se mantém por muitas páginas e há uma satisfação especial em terminar de lê-lo. Infelizmente ele tem um epílogo interminável e chatíssimo.

O curioso é que Cidade dos Anjos Caídos é exatamente o que se espera de uma história que fechou no terceiro volume e de repente saiu um quarto. Ele continua pequenos ganchos soltos do terceiro e afunda a trama bem média de uma forma bizarramente assustadora com bebês mortos e demônios antigos e tudo o mais. Simon brilha no quarto volume lindamente, ora roubando o protagonismo da história insossa de Clary, ora lidando com a questão da sede e da imortalidade de maneiras incríveis, mas mesmo assim há um clima de “o clímax já passou, o que vier é lucro” e o quarto livro não é tão empolgante quanto o anterior.

Um mal de fanfic que chegou no primeiro livro e parece que não vai sumir nunca é a abundância de personagens esteticamente perfeitinhos. Ninguém é gordo; quando há personagens negros eles ou morrem ou tem sua aparência suavizada (até agora não ficou claro se a Maia é negra, uma variação de morena, sei lá, é incrível como a Cassie NUNCA MAIS descreveu a Maia). Parece que a desculpa do treinamento funciona pra deixar todo mundo entanquinhado e belo. Há uma proliferação de olhos coloridos também. Prepare-se para ler umas cinquenta vezes o quão dourado e brilhante é o cabelo perfeito de Jace ante a luz do sol.

Tem uma coisa que sempre foi sutil mas que agora floresce de maneira incrível, principalmente no quarto volume: O erotismo tácito e o flerte com as armas. Os Caçadores de Sombras têm alguma coisa com armas, não é possível, a descrição dos músculos por trás da camisa do Jace sempre vem junto com alguma adaga ou faca. Sangue, seco ou não, é uma coisa constante que também sempre vem no pacote da descrição meio libidinosa que a Cassandra faz dos personagens. Ponto positivo.

Mais uma vez as editoras não tem ideia do que estão fazendo e a capa do terceiro volume tem o personagem…. Alec? Sebastian? Não sei. Independente de quem for está bem errado porque parece que TODOS os outros volumes são do Jace e da Clary…? Mesmo conselho que a resenha anterior: Grudem na edição de colecionador que encerra dois livros de uma vez. Bom, acho que nem a Cassandra planejou o quarto volume muito bem porque até o título parece meio genérico e isso pesou pra quase 7, mas mais uma vez, é difícil uma série me pescar assim, e por eu ter agarrado essa isca, a nota mantém-se 8.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Cassandra Clare
688 páginas – Galera Record