O Jogo na Caixa de Sapatos – OGS #158

O Jogo na Caixa de Sapatos – OGS #158

E nesse 31 de Outubro temos O Jogo na Caixa de Sapatos! Com terror, pistolices, amigos e literatura nacional que te dá um calafrio maroto nesse hallowinesco dia do saci.

Sinopse: Felipe, André e Marcelo gostam de passar madrugadas lendo Creepypastas. Uma noite, os três resolveram ler só mais uma história antes de dormir e, quando Marcelo desaparece, seus amigos são os únicos que desconfiam do sobrenatural. (Sinopse do Skoob)

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Ancillary Sword – OGS #157

Ancillary Sword – OGS #157

Ancillary Sword é a sequência do mais que lindeza Ancillary Justice, e nesse Ann Leckie pistola para todos os lados sobre as injustiças de uma sociedade “civilizada”…

Sinopse: What if you once had thousands of bodies and near god-like technology at your disposal?
And what if all of it were ripped away?
The Lord of the Radch has given Breq command of the ship Mercy of Kalr and sent her to the only place she would have agreed to go — to Athoek Station, where Lieutenant Awn’s sister works in Horticulture.
Athoek was annexed some six hundred years ago, and by now everyone is fully civilized — or should be. But everything is not as tranquil as it appears. Old divisions are still troublesome, Athoek Station’s AI is unhappy with the situation, and it looks like the alien Presger might have taken an interest in what’s going on. With no guarantees that interest is benevolent.

Se você ainda não leu a resenha sobre o primeiro livro, Ancillary Justice (ou quer relembrar), dá uma corridinha aqui!

Bem, pessoas… ler Ancillary Justice foi simplesmente fantástico, o nível de complexidade, as críticas, a ideia de que existe um idioma onde a barreira de gênero (num sentido de tipo de genitália mesmo) não existe, mas ao mesmo tempo ter os contrapontos direcionados a outras sociedades (eu ia usar a palavra civilização, mas ela é bem problemática nesse livro HAHA).

Aí entrei com tudo na continuação, Ancillary Sword.

“One of a triad, that word. Justice, propriety, and benefit. No just act could be improper, no proper act unjust. Justice and propriety, so interwined, themselves led to benefit. The question of just who or what was benefited was a topic for late-night discussions over half-empty bottles of arrack, but ordinarily no Radchaai questioned that justice and propriety would ultimately be beneficial in some gods-approved way.”

“Uma de uma tríade, essa palavra. Justiça, propriedade e benefício. Nenhum ato justo pode ser impróprio, nenhum ato apropriado pode ser injusto. Justiça e propriedade, por si só, levam ao benefício. A questão da justiça de quem, ou quem era beneficiada por isso era um tópico para discussões tarde da noite, com garrafas já meio esvaziadas de arrack, mas nenhuma Radchaai comumente questionava se justiça e propriedade não seriam ao final benéficas de alguma maneira aprovada pelas deusas.” (tradução livre minha)

Ancillary Sword, Ann Leckie, p. 20-21

Ancillary Sword é um pouco mais lento que seu primeiro, sofre do mesmo mal que todo segundo livro de trilogia, não pode acelerar muito, nem concluir tudo… MAS. Ann Leckie se dedicou primorosamente a usar esse segundo livro pra criticar tudo. O que foi lindo.

““The Athoeki weren’t very civilized.” Not civilized. Not Radchaai. The word was the same, the only difference a subtlety expressed by context, and too easily wiped away.”

“‘Os Athoeki não eram muito civilizados.’ Não civilizados. Não Radchaai. A palavra era a mesma, a única diferença era expressada sutilmente pelo contexto, e rapidamente deixada de lado.” (tradução livre minha)

Ancillary Sword, Ann Leckie, p. 83-84

Ela critica a suposta civilização proposta pelos Radchaai, o uso da força imposta como ajuda à sociedades ditas inferiores (OPAAA), o preconceito com quem não se adequa aos seus padrões de sociedade (OPAAA²), e até o questionamento de Breq voltado para rituais estranhos em Athoek, estação onde se passa o livro todo…

“If Athoek Station had any importance at all, it was because the planet it orbited produced tea. Other things as well, of course – planets are large. And terraformed, temperate planets were extraordinarily valuable in themselves – the results of centuries, if not millennia of investment, of patience and difficult work. But Anaander Mianaai hadn’t had to pay any of that cost – instead, she let the inhabitants do all the work and then sent in her fleets of warships, her armies of ancillaries, to take them over for herself.”

“Se a Estação Athoek tinha alguma importância que fosse, era porque o planeta que orbitava produzia chá. Além de outras coisas, claro – planetas são grandes. E planetas já terraformados, com temperatura estabilizada, eram extremamente valorizados por si só – o resultado de séculos, se não milênios, de investimento, paciência e trabalho duro. Mas Anaander Mianaai não teve de pagar nada desse custo – ao contrário, ela deixou que os habitantes do planeta fizessem todo o trabalho, mandando então suas frotas de naves de guerra, os exércitos de ancillaries, para pegar o planeta para si.” (tradução livre minha)

Ancillary Sword, Ann Leckie, p. 73

Breq está full pistola desde o primeiro livro. Ela já entrou com dois pés na porta antes e agora mais ainda, ela vai causando revoluções por onde anda, quais seus verdadeiros interesses ainda meio nebulosos, é um livro que não te passa muita clareza de onde Breq quer chegar, só sabemos que ela está afim de acabar com Mianaai. E com todos os focos de injustiça que conseguir.

Aliás, nesse livro algo bem complicado (e que foi bem discutido) são relacionamentos. O livro te dá (em continuidade com o primeiro volume) um panorama excelente de como se dão as relações humanas, afetivas ou não, inclusive no cunho sexual. Inclusive que mesmo num planeta civilizado, pessoas abusivas ainda existem. Pessoas que tem tantos problemas que descontam em quem julgam ser mais fracos (e que estão fragilizados de alguma forma).

O livro inteiro vai permear as questões de civilidade, pessoas privilegiadas (e muitas vezes abusivas e acomodadas nessa posição), pessoas abusivas, e a postura muitas vezes mais superior de quem está na posição de oprimido (e dito como não civilizado).

Aliás, no primeiro livro não tinha conseguido gostar muito de Seivarden, MAS, nesse, ela ficou no meu coração (de novo vou usar apenas alusões ao feminino, justamente porque até tem como saber o que algumas personagens são, mas elas usam apenas pronomes femininos o tempo todo quando Radchaai). E uma surpresa foi conseguir gostar da Tisarwat. O problema que nos é apresentado em relação à essa personagem é tão tremendo, que, olha, Ann Leckie, você está realmente de parabéns.

Uma das coisas que mais me encantou no primeiro livro é o jeito como Breq é construída. Ela não é humana, sua relação com ser humana sempre foi através de corpos lobotomizados, os ancillaries, que também nesse livro são mais aprofundados de uma forma diferente. A maneira como ela pensa, como ela se sente presa em um corpo só, como sua mente não consegue mais ser a mesma… é tudo muito sensível e bem feito.

“When I had been a single ancillary, one human body among thousands, part of the ship Justice of Toren, I had never been alone. I had always been surrounded by myself, and the rest of myself had always known if any particular body needed something – rest, food, touch, reassurance. An ancillary body might feel momentarily overwhelmed, or irritable, or any emotion one might think of – it was only natural, bodies felt things. But it was so very small, when it was just one segment among the others, when, even in the grip of strong emotion of physical discomfort, that segment knew it was only one of many, knew the rest of itself was there to help.
Oh, how I missed the rest of myself.”

“Quando eu era apenas uma ancillary, um corpo humano dentre centenas, parte da nave Justice of Toren, eu nunca havia estado sozinha. Sempre estivera cercada de mim mesma, o resto de mim sempre sabia se algum corpo em particular precisava de algo – descanso, alimento, toque, ser confortado. Um corpo ancillary pode se sentir momentaneamente sobrecarregado, irritado, ou qualquer outra emoção que se possa pensar – nada além do natural, corpos sentem coisas. Mas era tão pequeno em proporção, quando era apenas um segmento entre vários, quando, mesmo à beira de uma emoção forte ou desconforto físico, aquele segmento sabia que era um dentre vários, sabia que o resto de si estava lá para ajudar. Ah, como eu sentia falta de mim mesma.” (tradução livre minha)

Ancillary Sword, Ann Leckie, 138

Esse é meu trecho favorito do livro todo.

Da mesma forma que no primeiro livro, eu poderia passar um tempão aqui discutindo as nuances das críticas e discussões, a que envolve o relacionamento abusivo em si é fantástica (horrível, mas a maneira como é tratada, como você não sabe se são mulheres ou homens envolvidos, e não faz diferença realmente, é interessantíssima), a dita civilidade, a superioridade acima do bem estar do próximo… É um livro que tem muitas facetas.

Por mais que ainda goste muito mais do primeiro.

Senti que Ann Leckie usou esse segundo como uma catarse para todas as vontades de pistolar (hehe) que tinha. Pra todas as críticas que estavam lá, como uma possibilidade de mostrar uma outra faceta dos problemas em um contexto diferente, o que, afinal, a ficção científica sempre consegue fazer primorosamente (ou deveria).

Breq justiceira é sua porta voz nesse mundão cheio de injustiça, benefício para poucos e elementos apropriados para menos ainda.

Aguardem que vou ler o terceiro e volto pra fechar essa bíblia que são as resenhas dessa trilogia. HAHA

Ancillary Sword (livro 2)
Autora: Ann Leckie
Editora: Orbit
Páginas: 432
Link no Skoob

 

Ps.: A Ann Leckie é uma super pistoleira no Twitter também, recomendo seguir! <3

Garota Exemplar – OGS #156

Garota Exemplar – OGS #156

Garota Exemplar e seus plots twists excelentes me deixaram com cara de otária e muito feliz. Demorei, mas li e fiquei surpresa com esse livro xuxu:

Sinopse: Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississipi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino? Com sua irmã gêmea Margo a seu lado, Nick afirma inocência. O problema é: se não foi Nick, onde está Amy? E por que todas as pistas apontam para ele? (sinopse do Skoob)

Enrolei pra ler, mas olha, que plot twist, pessoas. Mas antes de chegar lá, vou conversar um pouco sobre o livro em si. haha

“Estou cuidado da minha vida, minha vida impulsiva: e se eu pulasse da varanda neste exato momento? E se eu desse um beijo de língua no sem-teto na minha frente no metrô? E se eu me sentasse sozinha no chão dessa festa e comesse tudo naquela bandeja, incluindo os cigarros?”
Garota Exemplar, Gillian Flynn

Gillian Flynn tem uma habilidade maravilhosa em compor trechos irônicos, deboches (amo o uso dela de parênteses o livro todo, sério, tocou meu coração de uma forma muito agradável), críticas espinhosas e personagens.

“Nosso pai já estava quase lá – sua mente (cruel), seu coração (miserável), ambos funestos enquanto ele vagava rumo ao grande cinza do além.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn.

O livro varia entre o diário de Amy, a garota exemplar, e o inferno que se torna a vida de Nick, o marido, acusado de assassinar e sumir com o corpo de sua esposa. Nick é um cara medíocre. No sentido estrito da palavra. Culpa a internet por não ter emprego, culpa sua esposa por ficar entediado, culpa qualquer coisa pra justificar suas ações. Ele é um personagem que não inspira carisma em nenhum momento. Ele foi feito pra ser assim, aliás.

“Eu deveria acrescentar, em defesa de Amy, que ela me perguntara duas vezes se eu queria conversar, se tinha certeza de que queria fazer aquilo. Eu às vezes deixo de fora detalhes como esse. É mais conveniente para mim. Na verdade, queria que ela lesse minha mente para eu não ter de me rebaixar à arte feminina da articulação.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn

Já Amy… Ah, Amy. Pelo diário, temos uma Amy desde antes de conhecer o Nick, uma verdadeira garota exemplar. Tem seus dias ruins, seus dias bons, mas é uma esposa devota e uma… garota perfeita? Pode ser. Vamos seguir com isso. Ela é feita pra ser adorável mesmo.

“Ninguém queria que Amy Exemplar crescesse, muito menos eu. Deixem-na de meias três-quartos, fitas nos cabelos, e me deixem crescer, sem ser atrapalhada pelo meu alter ego literário, minha metade melhorada envolta em papel, o eu que eu deveria ser.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn

Acompanhar o desenlace do caso, e não vou me estender muito nisso, porque quero que você leia sim pra ficar “AAAAAAA” ao longo do livro, é incrível. As viradas que a Gillian faz, as críticas mascaradas pelas várias personagens, o tapa na cara que você leva por ser um leitor otário, bem… tudo muito bem feito e estruturado.

“Você não está saindo com uma mulher, você está saindo com uma mulher que viu filmes demais escritos por homens socialmente estranhos que gostariam de acreditar que esse tipo de mulher existe e poderia beijá-los.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn (ESSE É MEU TRECHO FAVORITO)

Você vai mudando de ideia ao longo do livro. Vai mudando de lado a cada capítulo, e olha… gosto bastante disso. Essa dubiedade da moral que fica presente o tempo todo é o melhor da experiência. Até a metade do livro eu fui construindo meu lado por meio de uma visão feminina. Afinal, né…

Algo que eu realmente queria poder fazer é apagar toda a leitura da minha mente, abrir o livro de novo e ler como um homem. Uma das maiores sacadas da Gillian é saber como uma mulher pensa, pelo que uma mulher passa, os esteriótipos, o machismo nosso de cada dia, a falta de confiança que um discurso feminino tem, a falta de poder, as mortes, agressões, bem. Gillian é marota. Por mais que ela te obrigue a querer mudar de lado em algumas partes, mesmo assim… você hesita. HAHA

“Ontem à noite, para a câmera, eu estava adoravelmente abalado, um tanto ébrio, in vino veritástico.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn

É bizarra essa sensação de hesitar mudar de lado, porque você compõe uma miríade de situações que já conhece e aplica nessa história.

Outra coisa muito bem construída é o fato de que a solução do mistério não é o fim da história. Até porque ele é apenas mais uma faceta. E, agora preciso também equilibrar a resenha, apesar de ter achado a história um pouco cansativa (o livro me pareceu durar demais em alguns momentos, e sinceramente, mesmo no frenesi, eu cansava um bocadinho, senti que alguns trechos poderiam ter durado menos do que duraram), isso foi muito bem organizado.

Não posso me estender em outras questões, porque prefiro que leiam e saiam correndo pela casa ao chegar na metade do livro enquanto gritam, então vou parar por aqui.

“Não tenho mais nada a acrescentar. Só queria garantir que eu tivesse a última palavra. Acho que fiz por merecer.”

Garota Exemplar, Gillian Flynn

Garota Exemplar
Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Páginas: 448 (mas li o ebook, então não sei!)
Link no Skoob

 

Acho que pra fechar eu só teria a dizer que não assisti o filme, então não consigo tecer uma comparação… MAS. Caso assista venho e volta a editar a resenha ^^

Você consegue dar um bizu em vários trechos que separei (VÁRIOS MESMO, porque não resisti) no Tumblr!

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