O Jardim de Cimento – Rapidinhas #24

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“Aos quatro anos, eu achava que minha mãe inventava os sonhos que eu tinha de noite. Se de manhã ela me perguntava, como às vezes fazia, o que eu havia sonhado, era só pra saber se eu ia dizer a verdade”

O claustrofóbico desenvolvimento de quatro irmãos de diferentes sexos e idades, numa casa dominada pelo tédio e pelo abandono familiar.

Absolutamente nauseante e envolvente, a história é contada por um dos irmãos e seu ponto de vista adolescente é sincero e cru. A narrativa flui MUITO rápido e é impossível largar a leitura antes de chegar-se ao fim, o que não deve tomar mais que uma tarde. Cada parágrafo é perturbador e apresenta algo novo, de forma que nunca fica parada. O foreshadowing e a importância simbólica dos momentos mais simples e fugazes são impressionantes e me lembram em muito O Senhor das Moscas. A falsa impressão de que “nada vai acontecer” é verdadeiramente esmagadora, tanto pro leitor quanto para os personagens.

Vi resenhas que reclamavam da vulgaridade da obra, mas não compactuo com o pensamento: Extremamente psicológica, os quatro irmãos passam a portarem-se como bichos uma vez esmagados pelo peso do nauseabundo e da responsabilidade de serem humanos. Talvez os corações fracos de alguns leitores os impeçam de enxergar além do abismo da humanidade, pois se prendem demais à sua superfície, horrorizados com termos como masturbação e incesto. Para os que admitem essa vulgaridade inerentemente humana, livres de preconceitos e prontos para admitir a existência das sombras de seus inconscientes, os que optam por mergulhar nesse poço escuro de páginas, há uma narrativa perturbadora de horror com um desfecho de tirar o fôlego.

Nota 9

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O Jardim de Cimento – Ian McEwan
129 páginas – Companhia de Bolso

Alta Fidelidade – Rapidinhas #23

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“Só porque se trata de um relacionamento, de uma coisa sentimental, não quer dizer que não dê pra tomar decisões racionais a respeito. Às vezes é o que a gente precisa fazer, ou não chega a lugar nenhum. Aí é que está o meu erro. Ter permitido que o clima e os músculos do meu estômago e uma sensacional passagem de acordes num single dos Pretenders decidam por mim, e agora quero passar a decidir eu mesmo.”

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Os Detetives Selvagens – Rapidinhas #21

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Como traduzir o título? Sangre de Satén ou Sangre de raso? Levei mais de uma semana pensando nisso. Foi então que de repente desabou em cima de mim todo o horror a Paris, todo horror à língua francesa, à jovem poesia, à nossa condição  de metecos, à nossa triste e irremediável condição de sul-americanos perdidos na Europa, perdidos no mundo, e então soube que não iria poder continuar traduzindo Sangre de Satén ou Sangre de Raso, soube que iria terminar assassinando Bulteau em seu estúdio da rua de Téhéran e depois fugindo de Paris como um desesperado. De modo que decidi não levar a cabo essa empresa e, quando Ulisses foi embora (não me lembro exatamente quando), parei de frequentar para sempre os poetas franceses.

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Ilíada – Rapidinhas #20

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Canta, ó Musa, a ira de Aquiles, filho de Peleu, que incontáveis males trouxe às hostes dos aqueus. Muitas almas de heróis desceram à casa de Hades e seus corpos foram presa dos cães e das aves de rapina, enquanto se fazia a vontade de Zeus, a partir do dia em que se desavieram o filho de Atreu, rei dos homens, e Aquiles, semelhante aos deuses.”

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V. – Rapidinhas #19

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“Em torno de cada semente de dossiê, portanto, desenvolvera-se uma nacarada massa de inferência, licença poética, forçoso deslocamento de personalidade para um passado que ele não lembrava e ao qual não tinha direito, a não ser o direito de ansiedade imaginativa ou cuidado histórico, que não é reconhecido por ninguém. Ele cuidava de cada concha marinha de sua fazenda submarina, terno e imparcial, movendo-se desajeitado em torno de seu cercado no leito do porto, evitando cuidadosamente o pequeno buraco bem no meio das conchas domesticadas, no fundo do qual só Deus sabia o que vivia: A ilha de Malta, onde seu pai morrera, onde Herbet nunca fora e da qual nada sabia, porque alguma coisa ali o mantinha à distância, porque o assustava.”

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