Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Rapidinhas #31

Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Rapidinhas #31

“Somos todos parte do que nos lembramos. Guardamos em nós as esperanças e os medos daqueles que nos amam. Contanto que exista amor e lembrança, não existe perda de fato.”

A trupe de Clary e Jace se reúne uma última vez para enfrentar Sebastian e pôr um ponto final numa história que já devia ter acabado três livros atrás.

É compreensível que Cassandra Clare queira continuar se aventurando no universo que ela criou com mais livros, mas é inadmissível que metade desse volume sejam ganchos para uma trilogia paralela. Na esperança de fidelizar ainda mais os seus leitores, Cidade do Fogo Celestial divide boa parte das suas 500 páginas com personagens da série As Peças Infernais. Se ao menos isso fosse feito de maneira empolgante, mas não, todas as (muitas) partes em que Emma aparecia eram extremamente chatas e repetitivas. Se Clary gasta todo o seu tempo de personagem vivo fantasiando com o dourado dos cabelos de Jace, Emma é uma que gasta todos os seus parágrafos repetindo como Julian é o melhor amigo dela. E ela o faz do primeiro capítulo até o último.

O fato do texto ser extremamente repetitivo é mais um dos fatores para que a leitura se torne desnecessariamente longa. Parece que o livro não passou por uma edição porque pelo menos duzentas páginas poderiam ter sido facilmente cortadas, especialmente (como de costume) no epílogo. Cassandra consegue passar adiante o clima de “tudo está acabando, qualquer um pode morrer”, porém não consegue evitar que o fantasma da Nova Trilogia de Star Wars imprima sobre sua história um sentimento permanente de que as coisas fugiram do controle dela: O personagem Sebastian que dera um show no livro anterior, por exemplo, reduziu-se a um dos vilões mais patéticos e sem propósitos que já vi. A aparição do pai de Magnus, que tinha tudo para ser boa, acabou sendo pouco convincente: O vilão falava demais, com uma casualidade fingida.

Um dos pontos positivos que era a crescente tensão sexual e o flerte com as armas perdeu-se totalmente nessa história, infelizmente, e eu realmente não sei como ela conseguiu fazer isso com um plot onde os protagonistas perdem a virgindade numa caverna no meio do inferno.

Na vã tentativa de aprofundar mais ainda o personagem Alec, Cassandra acaba dando a entender que nunca na vida sequer conversou com um homossexual. Ao invés de interessante, Alec acaba se tornando um alívio cômico incômodo. Clary continua uma ótima personagem e Jace também, mas Jace perde o protagonismo um pouco aqui e com isso vão-se para o ralo os bons diálogos que os dois tinham. Acredito que o único ponto positivo mesmo seja a atmosfera video-gamística de last dungeon que permeia a segunda parte antes dela ficar um saco.

É importante ressaltar que todas as piadas e trocadilhos foram infantis e sem graça nenhuma e também que a personagem Isabelle continua um porre nada convincente. O terceiro livro, o que encerra a primeira trilogia, é sem sombra de dúvidas vastamente superior e é com muita tristeza que encerro essa resenha com uma nota baixíssima, mas com boas lembranças dos momentos incríveis que rolaram nos livros que vieram antes desse.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade do Fogo Celestial – Cassandra Clare
532 páginas – Galera Record

Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Rapidinhas #30

Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Rapidinhas #30

“Ao lado de Clary, Jace respirou fundo. Ela girou para olhar. Havia uma mancha vermelha se espalhando na frente da camisa dele. Jace tocou a mancha com a mão; os dedos voltaram sangrentos. Somos ligados. Se cortá-lo, eu sangro.”

Depois de derrotar Valentim, Clary  tem de lidar com seu irmão psicopata incestuoso cuja alma está ritualistica e bizarramente conectada à de Jace.

O fim do quarto livro foi um pouco forçado, mas deu o gancho necessário para toda uma nova aventura na série dos Instrumentos Mortais. Dessa vez Clary abandona praticamente tudo o que lhe resta para correr atrás do seu mozão e o faz de maneira verdadeira, não apenas uma desculpa para que as coisas aconteçam. Ponto positivo, apesar da nossa vontade de gritar “Não faz isso, mulher!” a cada péssima ideia/decisão.

As coisas tem um ritmo um pouco arrastado na primeira metade do livro porque tem personagens demais para a Cassandra mover no seu tabuleiro e isso causa uma certa irritação com algumas situações. Eventualmente acabamos por odiar a Maia e o Jordan porque são personagens cujas ações não nos interessam mais e eles ocupam bastante páginas. O resultado disso é que tem-se a impressão que os personagens passaram um mês na casa de Magnus (um dos personagem mais cativantes e menos aproveitados de toda a série). O subplot de Malec também enfraquece mas pelo menos as coisas acontecem: Há uma conclusão. Para melhor ou para pior, parece que o conceito do personagem Alec mudou da água pro vinho: ele passou tanto tempo com Clary que acabou pegando a mania de fazer burradas. Isabelle quase torna-se interessante. É Simon quem, como de costume, rouba as atenções da trama quando Clary não está.

Se há pouca atenção dada à construção dos personagens secundários, pelo menos os protagonistas brilham. É gostoso ver Clary como shadowhunter finalmente: Ela aprendeu a brigar, a sentir o calor da batalha, a não se curvar a ninguém. Sebastian não está muito convincente como vilão (nem o plano dele aliás, porque se fosse assim tão fácil criar um Cálice Infernal, o mundo já estaria destruído há séculos) porém tem seus momentos marcantes. A briga de Clary e Sebastian ganha um destaque especial por tornar-se uma briga muito doméstica e crua. E esse é um dos pontos altos do livro: Pela primeira vez em todos os volumes você realmente empatiza com a protagonista, porque é um momento crível, é um momento real.

Como era de se esperar, o quinto livro de uma série destina-se às pessoas que já conhecem não apenas a trama mas também a escritora. Acompanhar o aperfeiçoamento da escrita de Cassandra é uma coisa que só um fã que já engoliu as capas horríveis e está disposto a engolir mais uma pode entender. A série mantém-se fiel à ela mesma, assim como sua nota, 8.

PS: Todo o livro vale a pena pela excelente parte da Clary louca de LSD de fada numa balada em Praga.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade das Almas Perdidas – Cassandra Clare
434 páginas – Galera Record

Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Rapidinhas #29

Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Rapidinhas #29

“As pessoas não nascem boas ou ruins. Talvez nasçam com tendências a um caminho ou outro, mas é a maneira como se vive a vida que importa. E as pessoas que conhecemos.”

Clary e Jace desvendam todos os segredos da conturbada família Morgenstern à medida que os planos de Valentim chegam à uma conclusão e aí tem um quarto livro.

Eis os volumes 3 e 4 da série Instrumentos Mortais. Parece que depois de um começo conturbado Cassandra Clare deu um jeito de fechar sua história. Ela finalmente decidiu o que eram demônios (bem diferentes dos demônios fantasiados de humanos dos primeiros capítulos do primeiro livro, né, fia?), decidiu que era hora de dar espaço pra história (cada vez melhor) de Simon e decidiu que nem tudo gira em torno de Jace, embora a opinião da protagonista seja essa. Clary continua extremamente cabeça dura e muitas vezes o plot caminha apenas por causa disso, o que não é necessariamente ruim. Como o único adulto que parece saber o que tá fazendo desde o começo é o Luke, a Clave, que é sumariamente composta de burraldos completamente incompetentes, continua atrapalhando tudo. O personagem Alec que finalmente começou a interessar um pouco no rumo do segundo livro, aqui assume uma trama sem graça com um desfecho bem bosta que arrasou com o Malec que a gente tanto queria e não resolveu nada (Parece que o negócio da imortalidade tá sendo realmente tratado no quinto e próximo livro, nunca vi um plot secundário tão arrastado, 4 livros pra fazer um almoço, isso não existe). O terceiro livro encerra 99% de todas as perguntas e apresenta a Idris de verdade: Os Nephilim existem, tem muita cultura, costumes e estilo e apresentam um conceito bem original quando comparados com os já batidos (mas sempre fascinantes) vampiros, lobisomens e fadas, fazendo com que tudo fique mais crível e coeso. Parece que o ponto alto dos livros até este é quando um personagem resolve tirar um capítulo pra contar o passado obscuro de todos os envolvidos. Sempre bom. Além disso, o final é bem empolgante e o ritmo se mantém por muitas páginas e há uma satisfação especial em terminar de lê-lo. Infelizmente ele tem um epílogo interminável e chatíssimo.

O curioso é que Cidade dos Anjos Caídos é exatamente o que se espera de uma história que fechou no terceiro volume e de repente saiu um quarto. Ele continua pequenos ganchos soltos do terceiro e afunda a trama bem média de uma forma bizarramente assustadora com bebês mortos e demônios antigos e tudo o mais. Simon brilha no quarto volume lindamente, ora roubando o protagonismo da história insossa de Clary, ora lidando com a questão da sede e da imortalidade de maneiras incríveis, mas mesmo assim há um clima de “o clímax já passou, o que vier é lucro” e o quarto livro não é tão empolgante quanto o anterior.

Um mal de fanfic que chegou no primeiro livro e parece que não vai sumir nunca é a abundância de personagens esteticamente perfeitinhos. Ninguém é gordo; quando há personagens negros eles ou morrem ou tem sua aparência suavizada (até agora não ficou claro se a Maia é negra, uma variação de morena, sei lá, é incrível como a Cassie NUNCA MAIS descreveu a Maia). Parece que a desculpa do treinamento funciona pra deixar todo mundo entanquinhado e belo. Há uma proliferação de olhos coloridos também. Prepare-se para ler umas cinquenta vezes o quão dourado e brilhante é o cabelo perfeito de Jace ante a luz do sol.

Tem uma coisa que sempre foi sutil mas que agora floresce de maneira incrível, principalmente no quarto volume: O erotismo tácito e o flerte com as armas. Os Caçadores de Sombras têm alguma coisa com armas, não é possível, a descrição dos músculos por trás da camisa do Jace sempre vem junto com alguma adaga ou faca. Sangue, seco ou não, é uma coisa constante que também sempre vem no pacote da descrição meio libidinosa que a Cassandra faz dos personagens. Ponto positivo.

Mais uma vez as editoras não tem ideia do que estão fazendo e a capa do terceiro volume tem o personagem…. Alec? Sebastian? Não sei. Independente de quem for está bem errado porque parece que TODOS os outros volumes são do Jace e da Clary…? Mesmo conselho que a resenha anterior: Grudem na edição de colecionador que encerra dois livros de uma vez. Bom, acho que nem a Cassandra planejou o quarto volume muito bem porque até o título parece meio genérico e isso pesou pra quase 7, mas mais uma vez, é difícil uma série me pescar assim, e por eu ter agarrado essa isca, a nota mantém-se 8.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade De Vidro e Cidade Dos Anjos Caídos – Cassandra Clare
688 páginas – Galera Record

 

Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Rapidinhas #28

Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Rapidinhas #28

 “Crescer acontece quando você olha para trás e percebe que há coisas que gostaria de poder mudar.”

Clary Fray luta para reencontrar a mãe e desvendar seu passado, perdida num recém-descoberto submundo mágico de vampiros, lobisomens, feiticeiros, caçadores de demônios e a quase reencarnação literária do Sephiroth.

Seguindo um rumo bem ficção científica infanto-juvenil pós-Harry Potter, Cassandra Clare nos brinda com uma história extensa e cheia de rodeios, com uma cultura rica, porém mal-trabalhada. Ela te agarra pelo pescoço e não te dá tempo de respirar. Mal se termina o primeiro capítulo e você já conheceu cinco protagonistas. De repente a história te enche de informação sem parar e tem-se a impressão de que será assim até o fim. Pelo menos uns 10 capítulos do primeiro livro passeiam com os personagens para lá e para cá pra poder explicar pro leitor como o mundo funciona, quem foi quem na Clave e no Ciclo, o que é um portal, o que significa nephilim, stela, parabatai, etc… Sério, até o título, nada atraente para quem nunca leu nada da série, é uma bomba de informação. Mas nada é tão curioso quanto a força com que Cassandra faz isso: De repente era informação pra caralho e eu simplesmente lembrava de todas elas. Ué, funcionou? Sim! E muito bem.

A escrita é meio infantil no começo, mas ao mesmo tempo ela tem paixão, tipo fanfic. Foi só depois de terminar o primeiro volume que resolvi dar uma pesquisada na internet e descobri tudo. Não apenas Cassandra é uma ficwriter famosa, como também ela escreveu MUITA fanfiction de Harry Potter. (Fiquei pasmo quando descobri a Draco Dormiens). Esse estilo meio fanfic de escrever é bom e é ruim. Por um lado ele é facilmente desvendável (o paralelo Jace/Clary e Draco/Gina é tão óbvio), a escrita é sempre muito teen e nada profissional, as comparações são estranhas, os personagens adultos tem um comportamento adolescente e imaturo e muitas coisas são forçadas. Mas para melhor ou para pior, é um estilo de escrita. É o tipo de livro que eu posso passar horas citando os defeitos e poxa, li os dois volumes em uma semana e já estou na metade do terceiro. E com certeza lerei todos. Aliás, depois de passar o nervoso do primeiro livro aprovado, Cassandra encontra a mão de escritora e o seu caminho único, de forma que o segundo livro segue num estilo muito mais próprio e confiante, tornando a história muito mais gostosa.

Infelizmente a autora, como toda ficwriter, perde o foco da trama pra focar no que ela gostaria de ver. Pra que desviar a trama pra vampiros e lobisomens se a gente mal conhece os nephilim ainda? Cadê os outros demônios? Alguns personagens não tem conteúdo, nasceram apenas porque eles são estilosos demaaaais (oi, oi, Raphael? oi?). A personagem Isabelle é tão sem sal que eu publiquei essa resenha com o nome dela errado e tive que voltar pra editar, Alec é outro personagem que se está ou não em cena, é como se não estivesse.

Pontos positivos: Bater toda a fantasia do livro com a cultura pop, como citar animes sem ofender ninguém, por exemplo. Dar mais personalidade ao Jace do que o Draco Malfoy teria. A química entre Clary e Jace é muito boa e isso facilita bons diálogos. Simon é um personagem ótimo, mas infelizmente só desabrocha no segundo livro. O desfecho do primeiro livro foi surpreendente e o do segundo manteve o hype com um gancho ótimo pro terceiro.

Nem preciso dizer que os editores não levaram Cassandra Clare à sério. Com um título gigantesco e até estranho, uma arte de capa deplorável  (quem leva a sério um livro com um tórax masculino na capa?) e um tom de voz na edição que me pareceu extremamente “esse é um livro exclusivamente para meninas”. Afinal, por que o abdômem do Jace tá na capa do primeiro livro se a protagonista é a Clary? Aliás, a capa é holográfica, parece um card pokémon. Deplorável. (Nem vou começar a xingar a capa do spin off As Crônicas de Bane, que comete o crime de estampar um modelo com rosto, matando de todas as formas a maneira como o leitor imagina o personagem, seja ele bonito ou não). E O COMENTÁRIO NA CAPA DA STEPHENIE MEYER FOI DE CAGAR! Nunca vi um livro TÃO mal produzido. Uma simples capa preta com “CIDADE DOS OSSOS” em Garamond seria melhor. Felizmente uma vez por década a Record lança essa ótima edição de colecionador que engloba os livros de dois em dois, embora não seja menos espalhafatosa. Vamos ver quantos anos vai demorar pra ela lançar o terceiro.

Acho que o resumo é esse: Posso citar mil defeitos, mas como eu sou uma fangirl ridícula, quero ler todos. Vai pra minha pilha de guilty pleasures, junto com High School Musical e Percy Jackson. Deu pra entender né? Nota 8, por ter conseguido me prender tão facilmente.

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Os Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos e Cidade das Cinzas – Cassandra Clare
677 páginas – Galera Record

Mason & Dixon – Rapidinhas #27

Mason & Dixon – Rapidinhas #27

“’Dagga tem muitos mistérios’, replica Dixon.
Sendo um deles que falar sobre as cousas, ainda que não as cause, causa assim mesmo algo, – o que é quase o mesmo, ainda que não chegue a sê-lo deveras. A menos que se possa fumar uma Batata.”

O astrônomo Charles Mason se une ao agrimensor Jeremiah Dixon na odisseica jornada de traçar a Linha Mason-Dixon americana, numa época em que a América “recém-descoberta” ainda pulula de índios, guerras e magia.

Mason & Dixon foi o maior desafio literário do ano até agora. Não apenas pelo seu tamanho, mas também pela maneira complexa em que foi escrito. A trama se passa por volta do século XVIII e Pynchon, que não dá ponto sem nó, escreveu o livro como ele teria sido rebuscantemente composto se o fosse na época. Os parágrafos são extensos e pesados e exigem total atenção, fazendo com que fique fácil se pegar relendo a mesma frase ou então se perdendo e tendo que começar o parágrafo do começo, algo BEM desestimulante pra um livro de 850 páginas. É interessante contrastar isso com o fato de que algumas passagens MERECEM ser relidas de tão geniais, infelizmente raras, mas não desperdiçadas, nenhuma delas.

Sendo um romance de época, exclui-se (ou melhor, diminui-se bem) uma das piores coisas de Pynchon: As personagens femininas caricatamente ninfomaníacas (machista mesmo). Dessa vez Pynchon trabalha de maneira surpreendentemente oposta: Lidando com uma época que pulula de escravos e dominada pela religião, ele passeia muito bem pela questão do preconceito, com passagens justas e ótimas, ora denunciando um relacionamento violentíssimo que acaba “bem”, ora pondo a personagem de Dixon a chicotear um escravocrata num leilão de escravos, tudo miraculosamente sem fugir do ponto de vista da época, até citando a questão do ódio.

Esteja avisado: Terminar esse livro é bem difícil. Ele perde o ritmo ao entrar na metade, ficando bem chato mesmo e finalizá-lo torna-se uma tarefa terrível, mas aos que persistem há uma recompensa: As últimas 250 páginas são sensacionais. À medida em que os personagens se embrenham nas florestas, eles entram em contato com a fantasia mágica que está morrendo no mundo. Longe da globalização encontramos de cães falantes (quase extintos, já no século XVIII) à vegetais colossais (a passagem da beterrada gigante e dos trabalhadores que cavaram um túnel dentro dela é brilhante).

Pynchon tem esse poder de escrever um desenho animado do Pernalonga como se fosse algo sério e sabe fazer com que tenhamos a impressão de que ele realmente estava lá (detalhes como o pó das perucas flutuando contra raios de sol entrando pela janela, por exemplo), que tornam muito mais críveis as roupas, perucas e costumes daquele tempo, coisa que, nas aulas de história, eu achava quase impossíveis de imaginar.

Mas onde ele mais acerta, como de costume, é nos personagens improváveis e incríveis, como Dixon (um dos melhores personagens da literatura, sem dúvidas), Mason (e seus momentos de redenção antes e depois da viagem à América), a Pata Mecânica (que atinge poderes cósmicos fenomenais), Styg (que dorme com seu machado e sofre de castormorfose) e os encaixa na história do mundo de maneira TÃO crível, TÃO verdadeira. Sem contar que em meio à essa fantasia, as coisas realmente aconteceram: A Linha Mason-Dixon existe, assim como sua história e quase todos os “personagens” existiram.

Quase dois meses pra acabar esse monstro, porém eis que findas estão as suas 9.5/10 páginas.

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Mason & Dixon – Thomas Pynchon
846 páginas – Companhia das Letras