Cidades vizinhas, cannolis recheados, Dona Tereza, uma caçada a uma sobremesa perdida no conto Em Busca do Cannoli Perdido!

Olá, pessoas, faz tempo que não aparecemos por essas bandas.

A gente está nos corres do Teatrim, estreamos A Rua da Fortuna esse sábado! Aqui vocês conferem também todas as infos.

Pra não deixar o Castelo às traças, pegamos um conto inédito e trouxemos pra essas bandas procês. Quem já assina a Newsletter já conseguiu ler antecipadamente (olha só hein), então aproveitem pra se inscrever djá. haha

Esse conto veio láaaa de uma viagem que fiz ano passado, espero que gostem. 🙂

 

Em busca do Cannoli perdido

É isso aí. Você me pergunta como cheguei aqui, um tupperware cheio de cannolis, a face de satisfação plena e nenhuma gasolina no meu carro. Você também me pergunta se valeu a pena, já que estou sozinha no meio de uma estrada, mas, olha, pelo menos eu tenho cannolis.

Deixe-me começar do princípio.

Minha mãe estava me infernizando sobre cannolis havia meses. Mandei todas as receitas que achara na internet, mas de nada adiantava, nenhuma delas ficava do agrado dela. Eu teria de sair em busca de uma grande fazedora de cannolis para suprir o desejo absurdo de minha mãe.

Fiquei sabendo de uma festa italiana que acontece numa cidadezinha aqui perto, cannolis, sendo italianos, provavelmente seriam encontrados por lá, logo pensei. Entrei no meu carro, dirigi até a cidade vizinha e lá estava a festa.

Bandeiras italianas pra todos os lados, uma variedade linda de massas, doces, gente dançando, umas estátuas de nonnas e nonnos e de cozinheiros com macarrões gigantes em pratos igualmente grandes para tirar foto (lógico que tive de parar em minha busca frenética para tirar uma foto ou duas com eles).

Acabei parando pra almoçar, porque o sol estava a pico e minha fome também. Os cannolis poderiam esperar uns vinte minutos, quem sabe. Sentei, comi uma massa com o melhor molho de tomate que já havia ingerido e um recheio de queijos que olha… Enfim, cannolis.

Levantei, e fui caçar as bancas de doces, só via os mais comuns, nada muito típico, uns brigadeiros, uns pudins… Minha ansiedade começou a atacar.

— Ah, moça, mas lá na banquinha 29 talvez tenha.

Fui correndo até a banquinha 29. Uma placa escrito “Doces” acima indicava que estava no lugar certo. Fiquei na fila pra perguntar se por um acaso minha busca estava completa.

— Cannolis? Vish, acabaram no começo da semana.

— Mas não vai ter mais nada?

— Não… só no festival que vem.

A moça da banca riu.

Eu chorei por dentro.

— Ah, valeu.

Decidi voltar pro restaurante no qual havia almoçado pra quem sabe perguntar se havia outra opção pra minha atualmente infrutífera busca.

— Moço, não consegui acha cannolis até agora. Sabe onde posso achar algum?

— Cannolis? Tentou na banca 29? Ela é a mais completa.

— Acabei de voltar de lá.

— Poxa, sinto muito.

Sentei numa cadeira e me larguei pra tristeza. Ele olhou pra mim.

— Olha, mas talvez você consiga achar na casa da Dona Tereza.

— Dona Tereza?

— É. Ela faz cannolis. Fica a uns cinco quarteirões. Meio fora de mão, mas se você tá realmente querendo cannolis…

— Eu tô.

— Então. Posso te mostrar mais ou menos onde é. Aí você pode ir lá ver se por um acaso tem.

Concordei na hora, dei meu celular com o mapa aberto pra ele, ele começou a zapear pelos quarteirões, e tocou num pedaço.

— É aqui ó. Se não me engano, claro. Mas é a casa 231.

— 231. Ok.

— É só chamar a Dona Tereza que ela aparece.

— Dona Tereza. Ok.

Agradeci e achei melhor ir a pé, não era muito longe, demorei uns 20 minutos pra achar a rua, era quase toda de terra, uns casebres simples. Procurei pelo número 231.

Não tinha.

Ok. Respirei.

Decidi bater no 233. Uma cabeça surgiu numa janela.

— Que é?

— É, oi. Eu to procurando a Dona Tereza? Vim pegar uns cannolis.

— Sei de cannoli não.

— E da Dona Tereza.

— Sei.

Silêncio.

— E ela tá aí?

— Não. Ela não mora aqui.

— Sabe onde ela mora?

— Sei.

Silêncio de novo.

— Ok… e é onde?

— Aqui no fundo. Vou chamar ela.

Respirei fundo pra dizer apenas obrigada.

— Obrigada.

Eis que ouço portas e janelas, uns murmúrios, diferenciei a palavra cannoli sendo proferida.

— Oi, fi. Cê tá querendo cannoli?

Uma senhorinha com cara de quem trabalhou literalmente todos os dias da vida dela surgiu da lateral da casa com um sorriso.

— Oi, Dona Tereza?

— Isso.

— Queria cannolis sim! Rodei a cidade inteira pra achar e nada, viu. Só a senhora mesmo.

Ela riu.

— Só eu memo. Entra aí.

O portão estava destrancado, então eu abri o cadeado e segui a senhorinha até os fundos.

— Acabei de terminar uma leva, ce vai querer quantos?

Eu não tinha pensado nisso. Indaguei ela quanto que era, somei quanto eu tinha de dinheiro e pensei comigo que gastaria tudo já que a jornada fora tão suada.

E então foi isso. Comprei os cannolis, ela perguntou se eu tinha levado um pote pra levar, eu não tinha, então ela me deu um dela e disse que eu devolvia quando voltasse pra pegar mais.

— Assim as pessoas sempre voltam. — Disse rindo.

Me despedi e me dei sozinha na rua. Um pote cheio de cannoli. Um tupperware que agora eu teria de devolver, presa num loop cannolístico.

Me senti vazia perante a conclusão da minha busca.

Voltei pro carro, plena, realizada, me sentindo uma pessoa completa.

Liguei o carro. Silêncio.

Ele não ligava.

Olhei pra minha bolsa. Pra todo o dinheiro gasto em cannolis e lembrei que não tinha abastecido o carro antes de sair.

Decidi ligar pra minha mãe começando com a boa notícia.

— Mãe, adivinha onde eu tô?