Fonte da imagem de fundo: Blog da Tag Livros.

Acompanhar Nnu Ego pel’As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta foi uma experiência estranha, não é um livro pra todos, mas foi um que me tocou tão profundamente que precisei vir escrever por aqui.

Sinopse: Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo. (Sinopse do Skoob)

Esse foi mais um livro da Tag que peguei pra ler. Comecei uma maratona pra terminar de ler os livros do ano passado pra começar esse ano sem peso na consciência hUEHUHE (quem segue no skoob deve ter estranhado os padrões, enfim, é isto.) Aí, cheguei no mês de outubro e lá estava um dos livros que mais vejo comentarem nos grupos, As Alegrias da Maternidade. Só de ler a sinopse já deu aquela tensão. Achei que seria uma leitura pesada e não fácil.

Um amigo tinha também começado a ler antes de mim e não gostado, mas automaticamente pensei “bem, pela cara não deve ser um livro pra ele”.

E dito e feito.

Buchi Emecheta fez um livro pra exorcizar todo o lado feminino que viveu, passou, pastou, e pastou muito na vida real dela, Nnu Ego, a protagonista é quase um alter ego seu, vivendo as agruras de tentar corresponder e lidar com o que entende por ser mulher, o papel do homem, o papel da família, dos filhos, o caos das mudanças, o apego das tradições.

Como alguém que não teve muito contato com a cultura africana, ver o mundo nigeriano pelos olhos de Nnu Ego, a vida focada na agricultura, depois a vida na cidade, sob controle dos “culturados” britânicos, foi uma lição. Lição das falhas de todos os lados, falhas femininas, falhas masculinas. A opressão e falta de respeito branca pela cultura local, como os costumes foram pouco a pouco sendo minados, transformados… algumas mudanças foram para o bem, as outras e sua maioria? Bem… nem tanto.

A autora consegue escreve uma vida toda, uma vida com poucas alegrias, como obviamente consta na ironia do título, de forma fácil de ler, é um livro que flui magnificamente. É uma leitura densa sim, mas não dificultosa. Em todo o momento nos deparamos com nomes diferentes, alimentos, locais, chis, garris, lappas, e tantas minúcias de um dia a dia nigeriano que poucas vezes são explicadas e que mesmo assim se tornam lugar comum, você consegue compreender tudo e todos sem nenhum problema.

Um dos trechos da revista da Tag deu um sumário excelente sobre o todo: “Os percalços vividos por Nnu Ego refletem uma cultura de violenta opressão patriarcal e colonial. Buchi Emecheta explicita em sua obra a prisão em que vive a mulher da Nigéria e a clara posição de subordinação ao homem, tanto o nigeriano quanto o europeu, com relações de poder diferentes, mas sempre inferiorizada” (p. 15).

É um livro incrível, que mesmo tendo sido publicado em 1979, ainda reflete essa prisão, cuja manutenção é feita tanto por homens quanto mulheres. E que teve esse retrato particular da Nigéria na época do pré-II Guerra de forma magistral.

É um livro extremamente feminino. Que pode sim ser lido por qualquer um que esteja aberto a tal, mas não creio que vá atingir da mesma forma a todos, e todas. Creio que seria ainda mais impactante se eu fosse alguém com uma carga africana, teria um outro aporte ainda mais incrível e julgo dizer ainda não datado.

“Mas, mesmo em sua aflição, Nnu Ego conhecia a resposta: “Nunca, nem mesmo na morte. Sou uma prisioneira de minha própria carne e de meu próprio sangue. Será que essa é uma posição tão invejável assim? Os homens nos fazem acreditar que precisamos desejar filhos ou morrer. Foi por isso que quando perdi meu primeiro filho eu quis a morte, porque não fora capaz de corresponder ao modelo esperado de mim pelos homens de minha vida, meu pai e meu marido, e agora tenho que incluir também meus filhos. Mas quem foi que escreveu a lei que nos proíbe de investir nossas esperanças em nossas filhas? Nós, mulheres, corroboramos essa lei mais que ninguém. Enquanto não mudarmos isso, este mundo continuará sendo um mundo de homens, mundo esse que as mulheres sempre ajudarão a construir.”

As alegrias da maternidade, Buchi Emecheta, p. 257-258

As Alegrias da Maternidade
Autora: Buchi Emecheta
Editora: Tag Livros, Dublinense
Páginas: 320
Link no Skoob

 

 

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