Mas quando falo de mim mesmo, todo tipo de outros fatores — valores, padrões, minhas próprias limitações como observador — faz, a mim, o narrador, selecionar e eliminar coisas sobre mim, o narrado. Sempre me perturbou o pensamento de que não estou pintando um quadro muito objetivo de mim mesmo.

Sumire é uma jovem metida à besta sustentada pelos pais que sonha em ser uma escritora e que se apaixona pela sua primeira chefe. A partir daí sua vida muda à medida em que ela cresce, trabalha, se desenvolve. Todo esse desenvolvimento é relatado pelo narrador que apesar de ser uma pessoa absolutamente sensata, nutre um interesse romântico platônico por ela.

É muito difícil julgar os livros do Murakami porque eles não são tudo aquilo mas é incrível como são gostosos de ler. Mundialmente conhecido como a leitura asiática mais acessível de todas, com uma narrativa geralmente sem pressa (e bota sem pressa nisso), Minha Querida Sputnik segue a receita de gatos, referências musicais ocidentais, uma cena de sexo bizarro, orelhas… As vezes eu acho que o Murakami devia juntar todos os livros em um só já que claramente eles se passam no mesmo universo (e muitos personagens são os mesmos, aparentemente). Murakami também, sem medo de viajar na maionese, manda umas metáforas muito descabidas, compara coisas tipo um lápis com uma espiga de milho de uma fazenda de um vampiro da Era Meiji, esse tipo de coisa. Mas as metáforas da Minha Querida Sputnik diferem. Elas são BOAS, a comparação do romance com satélites é interessante.

Apesar de girar muito bem em torno da solidão, o aprofundamento verdadeiro acontece (como em todo romance murakâmico) quando a trama entra no seu famoso modo mágico bizarro (dessa vez achei que não iria acontecer) e as coisas saem do realismo comum. Raramente Murakami dá respostas (pra não dizer nunca) com relação aos seus surrealismos, e essa obra não é uma excessão, mas apesar de não termos respostas o livro não te abandona cheio de enigmas. Metaforicamente, tudo foi respondido.  Aliás, comparado com outros romances, esse é mais pé no chão e portanto mais fácil de imergir. Não acho que o Murakami mereça um Nobel, nem que seus romances sejam muito importantes e muito menos que sejam as melhores coisas que eu já li, definitivamente, mas por algum motivo é gostoso lê-los. Nada demais, mas bom, mesmo assim. Tipo, nota 6, sabe?

 

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Minha Querida Sputnik – Haruki Murakami
232 páginas – Alfaguara