Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda. Nossa existência é apenas um teatro de sombras desse princípio.

A fuga do adolescente Kafka Tamura parece ser o estopim de uma série de desventuras mágicas num Japão à beira do mundo cuja realidade está cada vez mais tênue. Enquanto Kafka sobrevive longe de casa, um idoso capaz de conversar com gatos recebe, sem entender, a ritualística missão de colocar o mundo de volta nos eixos.

Todo romance de Haruki Murakami parece seguir uma receita curiosamente bem sucedida. Os ingredientes são sempre os mesmos: Comida, gatos, cenas de sexo estapafúrdias (1Q84 que o diga), metáforas explicadas timtim por timtim ao leitor, personagens que apresentam algum tipo de questão relacionada ao próprio gênero, dicas musicais e um simbolismo oculto intrigante, esse último se extendendo a coisas inimagináveis se você pesquisar no fórum certo. A relação crescente com o bizarro já começa logo no primeiro capítulo com o flerte de teor incestuoso nos pensamentos de Kafka. O texto de Murakami apesar de permeado de detalhes insignificantes é curiosamente enxuto e fluído. Não importa se você já leu 80% do livro, tem-se sempre a apaixonante impressão de que o mistério está apenas começando (Mesmo que em poucos capítulos você já tenha matado a charada).

Kafka à beira-mar foi considerado a opus de Murakami até o lançamento de 1Q84 e a comparação é inevitável já que ele parece ser apenas um treino para a trilogia que viria a seguir. Aquela costumeira e sempre bem-vinda aura meio Neon Genesis Evangelion de crise existencial também marca presença aqui quando o texto se aprofunda na psique dos personagens de forma intensa, ainda que nem sempre lá muito realista. No todo é um bom romance, pena que depois de 400 páginas você já não aguenta mais. E tem 600.

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Kafka à Beira-mar – Haruki Murakami
576 páginas – Alfaguara