Pois cada fogo é todos os fogos, o primeiro fogo e o último que um dia haverá de ser.

Conhecido como uma das mais grandiosas novelas americanas de todos os tempos, Meridiano de Sangue segue a juventude de um garoto sem nome enquanto ele desabrocha no velho oeste, eventualmente entrando para o violento bando de escalpeladores de Joel John Glanton e o diabólico Juiz Holden.

Cormac McCarthy já disse que o ser humano nasceu pra escrever sobre a morte e o que vier além disso não passa de auto-ajuda. Esse livro faz jus aos seus princípios. Brutal, desgraçado, sanguinolento, recheado de uma violência inerente ao homem perdido nas terras sem lei do velho oeste. Apesar de focar no pior do ser humano, McCarthy brilha mesmo é quando, sem fugir desse foco, descreve a natureza ao redor do personagem. Suas comparações são ricas e muitas vezes geniais, sempre num tom sombrio e viciante. Meridiano tem um texto fluído à sua maneira, repleto de frases rápidas (tive de diminuir a marcha do ritmo de leitura para poder acompanhar a história). Algumas pessoas consideram essa uma violenta e macabra sátira do velho oeste, mas eu acredito que seja exatamente o contrário: É John Wayne quem parece prestar à Meridiano de Sangue as suas homenagens, tamanha a riqueza de detalhes dos desertos e dos costumes das pessoas daqueles tempos. A trama é construída através de uma sucessão de curtas passagens maléficas e tão horríveis que deixariam Tex de cabelo em pé (Não é qualquer escritor que tem a coragem de comparar o amanhecer do sol com o surgimento de um gigantesco falo vermelho). Não é, no entanto, apesar de repleto de massacres, infanticídio e violência com os animais, um livro tão pesado quanto 2666, por exemplo.

Meridiano de Sangue tem outro ponto sensacional: Muitas das passagens rodam em torno de coisas não escritas. Se você quiser analisá-las minuciosamente sugiro essa maravilhosa enciclopédia que segue página a página as alusões, alegorias e fatos históricos reais com os quais a trama dá a mão graciosamente para andarem juntos. Ao chegar do final, há uma quase quebra da quarta parede, quando as expectativas do leitor são frustradas e um dos personagens praticamente gargalha, dança, ri diabolicamente de nós.

A edição aqui no Brasil está uma fortuna, mas a Alfaguara fez um trabalho de primeira com a capa, que combina intensamente não só com o título mas também com todo o conteúdo sanguinolento e desértico da história. Vale a pena adquirir uma edição.

Saiba mais no Skoob
Meridiano de Sangue – Cormac McCarthy
351 páginas – Alfaguara