Angela Carter, onde você esteve por toda minha vida? Descobrir essa autora por meio d’A Câmara Sangrenta e outras histórias me fez descobrir uma autora pro resto da vida e talvez definir um dos melhores livros do ano.

Sinopse: Originalmente lançados em 1979, os contos aqui reunidos são prova da sofisticação e criatividade de Angela Carter. Ao se apropriar de histórias folclóricas como Chapeuzinho Vermelho e a Bela e a Fera, além de personagens míticos como vampiros, lobisomems e entidades sobrenaturais, a autora reconstrói um universo realista que bebe no fantástico. Como quem desmancha um quebra-cabeça, ela reposicionar as peças do feminino, da violência, da sexualidade e do heroísmo em um imaginário inovador e indiferente aos paradigmas de sua época.
Embora pouco conhecida no Brasil, Angela Carter é considerada uma das principais escritoras inglesas do século 20. Sua obra é tão vasta quanto variada: são mais de trinta livros, entre contos, romances, poemas, ensaios e peças. Acumulou diversos prêmios durante a carreira, mas sua grande conquista está no legado artístico e humano de suas palavras. A Câmara sangrenta e outras histórias é um dos melhores exemplos de seus méritos. (Sinopse do Skoob)

Lá vai mais uma autora incrível pra ler esse ano! Também não conhecia Angela Carter, então fiquei surpresa ao ler um livro tão visceral como esse. Esse livro é uma compilação de versões diferentes dos contos de fada, só que com um diferencial: ela torna mais complexa a personalidade feminina presente nas histórias. E olha, minina, é uma beleza mesmo.

“Minha mãe indomável, de feições aquilinas; que outra aluna do Conservatoire podia se gabar de que sua mãe tenha enfrentado um barco cheio de piratas chineses, cuidado de uma aldeia quando de uma visita da praga, atirado num tigre comedor de gente com suas próprias mãos, e tudo isso quando ainda era mais nova do que eu?”
A Câmara Sangrenta, Angela Carter, p. 16

São 10 contos, uns maiores, uns tão curtos que só tem uma página frente e verso. Ela percorre desde Barba Azul, até Branca de Neve, Bela e a Fera, vampiros, lobisomens, a famigerada Chapéuzinho e suas perguntas, até o Gato de Botas.

“E me vi, de repente, como ele me via, meu rosto pálido, a forma como os músculos do meu pescoço sobressaíam feito arame fino. Vi o quanto aquele cruel colar se transformava parte de mim. E, pela primeira vez na minha vida inocente e confinada, senti em mim um potencial para a corrupção que me tirou o fôlego.”
A câmara sangrenta, Angela Carter, p. 22

Todos os contos são extremamente femininos, mesmo um dos poucos que tem como foco o Gato de Botas e seu senhor (haha), e o mais fantástico é que é uma feminilidade proposital. Ela dá personalidade, poder e controle pras mulheres dos contos de fadas.

Ela joga os defeitos, os desejos, a coerência (ou a falta que tinha nos originais, mesmo que os objetivos fossem outros), tudo e escancara, muitas vezes é metafórica pra caramba, e tem alguns contos que eu precisaria reler várias vezes até absorver as nuances. Ela tira da época, deslocando temporalmente tudo, então temos telefones, algumas tecnologias, bicicletas, carruagens e carros convivendo.

“Apesar de tão jovem, ele também é racional. Escolheu o meio de transporte mais racional do mundo para a sua viagem pelos Cárpatos. Andar de bicicleta é, em si, uma espécie de proteção contra temores supersticiosos, umas vez que a bicicleta é o produto da razão pura aplicada ao movimento. Geometria a serviço do homem! Dá-me duas esferas e uma linha reta e eu vou lhe mostrar o quão longe posso levá-lo.”
A senhora da casa do amor, Angela Carter, p. 169

Ao mesmo tempo que traz profundidade, traz leveza, traz poder à inocência, e também tem alguns trechos de humor, como no excelente (e por que não, zueiro) O Gato de Botas, com trechos como esse:

“- Como posso viver sem ela?
Fez isso durante vinte e sete anos, senhor, e não sentiu sua falta nem por um momento.
– Estou queimando com a febre do amor!
Então, podemos poupar o gasto com a lareira.
– Vou roubá-la do marido para viver comigo.
– Do que propõe viver, senhor?
– Beijos – disse ele, distraidamente. – Abraços.
– Bem, com isso o senhor não vai engordar, mas ela vai. Então, haverá mais bocas para alimentar.”
O Gato de Botas, Angela Carter, p. 136 (Gato de Botas personagem mais xuxu)

Minha vontade era de ler todos os contos ao mesmo tempo, acho fantástica essa visceralidade que alguns escritores e escritoras tem, de escrever tudo, sem máscaras, simplesmente porque é assim mesmo, de não ter vergonha de mostrar as personagens exatamente como elas são. Senti isso quando li o livro do Ian McEwan, já resenhado aqui pelo Rafael, O Jardim de Cimento (inclusive arrepios por esse livro até hoje), e senti isso lendo esse. Escrever assim é uma meta de vida pra mim.

Senti vontade de explorar mais as obras da Angela Carter, de descobrir o que ela pensava, de como trabalhava o feminino em outros aspectos, de me aprofundar nessa feminilidade toda.

A Câmara Sangrenta e Outras Histórias
Autora: Angela Carter
Editora: TAG Livros da edição da Dublinense
Páginas: 224
Link no Skoob

 

Ps.: Uma coisa fantástica dessa edição é que praticamente todas as participantes foram mulheres. <3

Ps.: AQUI tem a compilação dos meus trechos favoritos das histórias!

 

 

Lembrando que a trilogia do Castelo de Cartas está na lindona promoção de Natal lá na loja da Coletivo! Vem ajudar a gente a pagar as contas de escritora e ler livros joia nesse Natal! HAHA