Gógol e Nikhil foram meus companheiros de viagem em O Xará, da fantástica Jhumpa Lahiri, nessa sensação de se sentir estrangeiro no próprio país, de não fazer parte plenamente de nada, e ao mesmo tempo de construção de identidade.

Sinopse: Gógol Ganguli tem nome russo, sobrenome indiano e um espírito dividido. Filho de imigrantes bengalis que vivem nos Estados Unidos, enfrenta desde criança a crise típica de um tempo de fronteiras instáveis e vidas em trânsito: a de não se reconhecer em nenhuma cultura ou lugar.
Em meio a um constante conflito entre diferentes modos de vida – retratados na educação, na relação com os pais, na vida profissional – , Gógol Ganguli vai buscar no embate como próprio nome e nas relações amorosas um espelho no qual possa descobrir quem realmente é.
Autora vencedora do Prêmio Pulitzer de 2000, finalista do Man Booker Prize 2013 e do National Book Award 2013, Jhumpa Lahiri se consagra como um dos maiores destaques da nova literatura de língua inglesa. (Sinopse de O Xará do Skoob)

Esse foi o livro de fevereiro da TAG, quando o recebi veio um quentinho no coração, pois livro muito bonito. HAHAHA (a vida passa e a gente descobre que a metáfora de julgar um livro pela capa é péssima, já que livros bonitos fazem a diferença até pra ler melhor, não é?) Gostei ainda mais porque vinha com um livreto incluindo O Capote de Nikolai Gógol (que já apareceu aqui antes com o lindíssimo Avenida Niévski).

“Até agora não tinha ocorrido a Gógol que os nomes morrem com o tempo, que perecem assim como as pessoas.”
O Xará, Jhumpa Lahiri, p. 86

Eu não conhecia a autora, nem o livro, nem nada, por isso que gosto de imergir antes na revista que vem pra entender contexto, quem são as pessoas e só depois mergulhar na vida das personagens. Em tempos recentes me vi aprendendo mais sobre essa sensação de ser estrangeiro, de ninguém te aceitar como fazendo parte do país onde você nasceu. Não comigo, mas com amigos principalmente descendentes de asiáticos. Quando você tem um traço assim, quase nunca é considerado brasileiro de fato. Você é sempre de fora. Por mais que faça parte há tanto tempo quanto outras pessoas.

Isso acontece com Gógol Ganguli. Filho de imigrantes indianos, mas nascido já em território norte americano, ele nunca é aceito como tal. Ele sempre será indiano. Sempre será de fora. Ao mesmo tempo, quando ele vai para a Índia (já que seus pais se apegam à tradição, como forma de manter sua identidade no meio dessa massificação cultural que acontece nos Estados Unidos e outros países afins), também não faz parte de lá. Ele não nasceu, não cresceu ali, tem sotaque diferente, não sabe os macetes, os trejeitos, costumes, é um estrangeiro ali também.

Então ele faz parte de onde? Onde fica sua identidade?

“Pois Ashima está começando a se dar conta de que ser estrangeira e uma espécie de gravidez eterna – uma espera perpétua, um fardo constante, um sentimento contínuo de indisposição. É uma responsabilidade ininterrupta, um parêntese no que antes tinha sido a vida normal, apenas para descobrir que a vida anterior desapareceu, suplantada por mais complicado e exaustivo.”
O Xará, Jhumpa Lahiri, p. 65

A sensibilidade e o modo como tudo que acontece parece natural é lindo nesse livro. Você entende os percalços de cada uma das personagens, o modo como Gógol vê a si mesmo (e o problema que tem com seu próprio nome, tanto que o muda legalmente) não só perante seus pais, mas perante ao seu país, o modo como sua mãe, Ashima vê esse fardo de ser estrangeira, de lidar com uma cultura diferente, de manter as tradições vivas, o seu pai, Ashoke, que tem um tipo de dedicação linda à família, e homenageou o próprio filho com base no que sabia, os paralelos com as pessoas que aparecem no meio do caminho, sua irmã, os outros indianos, os americanos… É fantástico.

“Mas isso não é possível, Ashima e Ashoke pensam consigo mesmos. Essa tradição não existe para os bengalis, dar o nome do pai ou do avô a um filho, da mãe ou da avó a uma filha. Esse sinal de respeito na América e na Europa, esse símbolo de herança e linhagem, seria ridicularizado na Índia. Dentro das famílias bengalis, os nomes individuais são sagrados, invioláveis. Não são para serem herdados nem compartilhados.”
O Xará, Jhumpa Lahiri, p. 39-40 (Esse é um dos meus trechos favoritos)

Foi maravilhoso conhecer pedacinhos das tradições, nada explicado demais, tudo fica na exata medida do necessário. E acompanhar a família Ganguli por tantos anos é no mínimo emocionante.

Admito que em um determinado capítulo fiquei chorando por literalmente todas as páginas (ARGH). Tanto que mesmo já estando tarde decidi terminar o capítulo, senão ia chorar novamente quando voltasse ao livro. Esse é o nível de imersão que Jhumpa Lahiri te oferece.

Por mais que eu não goste muito desse excesso de adjetivação que aparece em alguns escritores da língua inglesa (gosto puramente pessoal), depois de um tempo acabei acostumando, e aí fluiu que foi uma beleza.

Todos viemos d’O Capote de Gógol… e Gógol Ganguli especialmente.

“Ele tem medo de ser Nikhil, alguém que não conhece. Que não conhece a ele.”
O Xará, Jhumpa Lahiri, p. 72

Aliás, um detalhe lindo é que por mais que Nikhil troque de nome, durante o texto ele sempre continua a ser Gógol. Ele nunca deixa de ser ele mesmo. Por mais que mude, por mais que viva, por mais que trilhe o caminho de construir sua identidade. Tudo isso ainda é ele mesmo.

O Xará
Autora: Jhumpa Lahiri
Editora: TAG Livros
Páginas: 344
Link no Skoob

 

Livrão, senhoras. LIVRÃO.

Aliás: O Capote é maravilhoso. Como tudo que já li de Gógol. <3

 

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