Quando uma tragédia acontece numa pacata vizinhança, as fofoqueiras de plantão vão à loucura. Vem ler o conto Fome, na seção Conto Extra!

Gosto de escrever histórias que poderiam existir em qualquer lugar e a qualquer momento. Por mais absurdas que possam ser, uma boa dose de realismo e plausibilidade as rodeiam. As coisas normais que vejo frequentemente ganham, na minha mente levemente transtornada, aspectos obscuros e sobrenaturais e para sair do meu sistema acabam tornando-se contos. São situações ordinárias que se transformam em eventos surreais, coisas que acontecem no dia a dia, com qualquer pessoa, na sua cidade, na sua rua, com você ou com algum amigo de um amigo seu, mas esteja ciente de que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

FOME

Quando ouvi aquela noticia, minha primeira reação foi de total espanto. “Como é possível? Eles eram uma família tão feliz, tão unida!”, falei com a voz meio trêmula. Aquilo beirava o absurdo. Somente pessoas descontroladas poderiam ser protagonistas de uma noticia como aquela. Aqueles vizinhos, que eu conhecia há quase 10 anos, sempre me pareceram, e a todos da rua também, como o exemplo de família bem sucedida, não era possível compreender o acontecido.

Agora George nos passava aquela informação. De todas as quatro pessoas naquele grupinho que formávamos na calçada ele parecia o mais abalado com a situação. Também pudera, ele foi um dos únicos que viu a movimentação dos carros de policia e ambulâncias naquela noite. Chegou a ver um corpo de perto. Deus me livre! Não gosto de ir a velórios, onde os corpos já estão arrumados, imagina ver um saído direto da cena do crime. Dei um aperto consolador no braço do homem e disse que precisava voltar para casa. Queria ligar para Daisy, a fofoqueira oficial da rua, o mais rápido possível. Por ser ainda muito cedo não estaria sabendo daquilo e seria prazeroso dar a ela uma noticia tão grande, iria acabar com o ar de sabida que tanto amava ostentar.

Apertei o passo e quando passei em frente à casa dela vi uma janela aberta, resolvi que iria gostar mais de falar aquilo tête-à-tête e poder ver sua reação.

Tentei empurrar o portão da frente, mas estava fechado. Morar no interior tem suas peculiaridades, a gente entra e sai da casa dos amigos e eles das nossas, sem pedir permissão, por exemplo. Outra coisa comum é que, quando uma novidade surge, seja boa ou ruim, a repercussão é sempre muito rápida e o assunto não morre por dias, portanto, ser uma das porta-vozes da tragédia iria me colocar na boca do povo.

Chamei seu nome. Ela esticou o pescoço pela porta antes mesmo da ultima silaba meio gritada, meio cantada, sair de minha boca. Suas enormes orelhas, aumentadas tanto pela idade quanto pelo habito de escutar conversas alheias, eram um radar infalível.

Percebi que ela sentiu o cheiro de fofoca fresca no ar e imediatamente me perguntou se alguma coisa tinha acontecido. Resolvi me deleitar na sua ignorância por um tempo. Comecei perguntando se tinha ouvido alguma coisa estranha durante a noite. Respondeu que não. Depois quis saber se sabia de alguma coisa a respeito dos Prado. Novamente me disse que não. “Então é melhor eu entrar para te contar isso”. Os olhos dela se esbugalharam de tal forma que eu me assustei.

Ela me levou até a cozinha e nos sentamos à mesa. Entre xícaras de café e fatias de bolo dormido eu contei tudo o que havia ouvido minutos antes. Daisy parecia murchar a cada palavra que eu dizia. Achei que iria ficar contente de ganhar a corrida pelo “furo de fofocagem”, mas conforme sua expressão se entristecia, eu me compadecia. Ao fim do meu monologo, porque ela não abriu a boca desde a hora em que comecei a falar, o silencio pairava pesado sobre nós e enquanto ela abaixava a cabeça e sussurrava uma oração, eu me pus a refletir sobre o acontecido.

Era algo realmente terrível, uma tragédia sem precedentes e sem aviso. Parecia ficção, daquelas mais horrendas e vulgares. Culpei-me por ter visto naquela circunstancia uma oportunidade de me aparecer. Daisy estava certa, as almas daquelas pobres pessoas iriam precisar de oração, muita. Quase que inconscientemente comecei a traçar a rota até a igreja onde iria pedir ao padre Pedro que colocasse os nomes dos mortos nas intenções das missas da semana toda. Padre que, aliás, estava cada vez menos preocupado em esconder seus casos com as carolas do bairro. Ia comentar algo a respeito, mas me repreendi mentalmente, já bastava de fofocas, quando ouvi algo em voz baixa.

— Eu sabia.

— Perdão? — Minha resposta foi automática, mas meu cérebro imediatamente processou as palavras.

— Eu sabia que algo assim iria acontecer a qualquer momento. — A mulher chorava na minha frente.

— Sabia de quê Daisy? Não estou entendendo. Você sabia que aquela coisa pavorosa ia acontecer? — Fiquei assustada.

— Não exatamente isso, mas eu já sentia que algo ruim iria acontecer naquela casa. — Ela se levantou, levou sua xícara vazia até a pia e continuou. — Nos últimos meses a Gabriela vinha muito aqui. Estava sempre triste e abatida. No começo não falava muito, eu não entendia muito bem o que estava acontecendo com ela, mas aos poucos foi se abrindo comigo.

— A garota vinha aqui? — Perguntei boquiaberta. Os Prado eram muito reservados, apesar de manterem uma imagem de família de comercial de margarina. Não eram o tipo de vizinhos que te convidariam para um café ou iriam ao seu churrasco de domingo. Ricardo, o pai, trabalhava fora, era gerente de uma filial de uma grande empresa, passava a semana em outra cidade e ocasionalmente viajava para fora do país. Por sinal, estava viajando quando a tragédia em sua casa aconteceu. Gabriela, sua filha, era uma garota de 15 anos, muito bonita. Passeava todas as tardes com seu cachorro de estimação e chamava atenção dos homens por ser bastante voluptuosa, apesar da pouca idade. Cristina, segunda esposa de Ricardo e madrasta de Gabriela, uma ex-modelo, que teve seu auge cerca de 10 anos antes, mas passou do tempo e sem talento nenhum, além da beleza, sem exageros, estonteante, teve a sorte grande de se casar com um homem rico que podia sustentar seus gostos caros. Os três eram vistos sempre de longe, sorridentes e quando, por um acaso, era possível esbarrar com algum deles, eram sempre muito educados e gentis. Nada poderia indicar que algo ali não cheirava bem.

— Ela passava tardes aqui. As vezes era difícil convencê-la a ir embora. Sempre pedia para ficar mais um pouco. Pedia pra eu fazer bolo, cochilava no sofá, brincava com os gatos… — Os olhos de Daisy ficaram marejados e eu fiquei curiosa. — Eu tinha a impressão de que ela não gostava de ir pra casa. — Continuou — Até que eu a confrontei, de maneira gentil é claro, e ela começou a me contar as coisas. — A expressão dela se fechou e ela veio se sentar na minha frente de novo.

— O que ela te falou, Daisy? — Minhas mãos estavam molhadas pela ansiedade e eu tentava enxugá-las na toalha da mesa.

— Eles não eram tão perfeitos assim, sabe? — Ela parou por um momento e abaixou o tom da voz. — Principalmente a Cristina. — “O que aquela mulher maravilhosa, rica e elegante teria de ruim?” Me perguntei. — Ela era obcecada por aparência. Quer dizer, ela passava dos limites na busca por perfeição e quem mais sofria com isso era a menina.

— Mas a Gabriela também era uma beldade. Com aquele corpo, aquele cabelo e ainda tão jovem, com certeza poderia ter se tornado uma modelo também. — Respondi me lembrando da garota que passava em frente a minha casa todos os dias.

— Ela não se via dessa maneira, pobrezinha, ainda era muito inocente, mas a madrasta via tudo isso nela e, acredito eu, queria transformar a garota numa cópia de si mesma. — O rosto dela ficou vermelho por um instante. — Ela não queria! — Esbravejou. — Por isso fugia pra cá! Gabriela vinha pra minha casa fugir das torturas da maluca da Cristina! — “Torturas? Que história!” Eu queria saber mais!

— O que acontecia naquela casa, Daisy? — Eu me debruçava sobre a mesa.

— O Ricardo não sabia, mas a sua querida esposa, estava matando sua filha de fome!

— Como assim? — Estremeci.

— A Cristina não deixava a menina comer! Dizia que ela estava muito gorda e que jamais seria bonita o suficiente para ser modelo se continuasse daquele jeito. Então ela submetia a garota a suas dietas malucas. Queria que Gabriela virasse uma anoréxica igual a ela! A menina me contou tudo, por isso vinha aqui e me pedia para fazer comida! A coitadinha passava fome! — Daisy estava abalada. Aquele crime horrível na casa dos Prado começava a fazer sentido. Ainda parecia uma história de filme de terror, mas enfim tinha uma explicação.

— Então foi por isso que… — Não consegui completar.

— Eu deveria ter feito algo. — A mulher disse para si mesma. — Mas não achei que aquilo poderia continuar por muito tempo. Até que a menina parou de vir. Isso deve ter umas duas semanas. Eu senti que algo estava errado, mas não quis me intrometer. Ela já havia me alertado de que Cristina estava ficando fora de controle. Começou a trancar a geladeira, a acordava antes do sol nascer para fazer exercícios, impedia Gabriela de sair… Eu deveria ter ido lá, batido na porta, ligado para o Ricardo, qualquer coisa!

— Calma Daisy, não foi sua culpa! — Estiquei a mão para consola-la, mas ela se retraiu.

— Agora ela está morta! De uma maneira tão nojenta e eu sabia! Eu sabia! — Ela começou a chorar e eu percebi que não seria mais possível conversar. Então me levantei, preparei uma xícara de café e coloquei na frente dela.

— Se você quiser companhia para ir ao velório me avise.

 

Quando cheguei em casa me sentei no sofá e comecei a processar aquelas informações. Não me sentia mal pelas duas vizinhas mortas, não as conhecia tão bem assim, nem pela coitada da Daisy e seus sentimentos de culpa, na verdade eu estava absolutamente eletrizada. Aquela história era surreal, coisa de filme mesmo. Seria impossível guardar aquele conhecimento só pra mim, as pessoas precisavam saber o que tinha acontecido ali. Andei um pouco pela sala enquanto me acalmava e tentava pensar em alguma coisa. A imprensa logo apareceria atrás de entrevistas, tragédias como aquela nunca passam despercebidas, especialmente pelos jornais sanguinolentos. Comecei a imaginar as câmeras, as luzes, a repercussão, quem sabe aquilo não poderia virar um livro, um documentário ou algo assim. Tomei uma decisão e peguei o telefone.

— Jorge Fernando, jornalista. — Atendeu o homem do outro lado da linha. Molhei meus lábios com a ponta da língua e me preparei pra falar.

— É sobre o crime na casa dos Prado. Sou vizinha deles. Eu sei o que aconteceu.

— Estou ouvindo.

— Por muito tempo Cristina Prado proibiu sua enteada Gabriela de comer, queria que a menina fosse magra e se tornasse modelo como ela, por isso a garota, enlouquecida pela fome, matou a madrasta e comeu seu corpo até morrer intoxicada.

— Meu deus!

— Meu nome é Patrícia Velloso. Com dois “L”.

 


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