Um senhor correndo após pensar ver algum conhecido, um jogo de xadrez nunca terminado, tudo isso no primeiro Conto Extra por Paulo Sade!

Eu criei coragem e mostrei um conto pra ela (uma escritora que conheci num palco). Antes disso ninguém nunca soube da existência dos meus textos. Ela leu e gostou!!! Me convidou para postá-lo em seu blog. Meu queixo caiu. Criei coragem de novo. Aqui estou! Obrigado Camila, sua linda s2.

Desde Harry Potter 1992 D.C. sou um grande amante da leitura. Cresci junto com o apogeu das séries literárias fantásticas. Pacotes enormes de sete livros. Trilogias de filmes com muitas horas de duração. Mapas de mundos incríveis. Era impossível estar imerso no meio de toda essa cultura e não ter ideias que deveriam ser colocadas no papel (ou tela). Foi o que fiz. O rascunho do meu primeiro “livro”, nunca finalizado e há muito perdido, surgiu antes mesmo de eu completar 10 anos. Não faço ideia do que era, nunca tive a memória muito boa, mas me lembro que depois desse, vários outros surgiram, e continuam a surgir. Hoje escrevo contos. Gosto deles porque são rápidos e eu sou meio preguiçoso mesmo. Assustadores, bizarros, filosóficos, pornô, cômicos, românticos, não quero classifica-los, quero que sejam a minha cara, uma mistura de influências e gostos. Ecléticos, diversos e divertidos.

O JOGO

 

Claudio correu. Correu os seis quarteirões até seu velho apartamento sem parar nenhuma vez para tomar fôlego. Já o tinha perdido por completo depois de ver aquela… aparição. Correu tanto que se esqueceu de que para andar precisava se apoiar numa bengala. Correu e obrigou seu corpo a se lembrar do jovem velocista que havia sido no ginásio, há quase 70 anos atrás. O porteiro, ao avistá-lo de longe, preocupado se apressou para abrir o portão do prédio e deixar o velho entrar. Nunca havia visto alguém daquela idade correr com tanto vigor e quando o velhote passou por ele, sua expressão de terror arrepiou os cabelos de sua nuca. Ficou com medo de saber do que se tratava e como o homem entrou sem dar palavra sentou-se de volta em sua mesa, encarando a TV ligada.

Quando chegou em seu quarto, revirou os velhos álbuns do tempo da universidade a procura de um rosto, rosto que em sua mocidade conheceu tão bem. Pedro havia sido o seu maior segredo, sua maior aventura e também sua maior saudade. Não encontrou, porém, o registro que queria consultar, a fim de tirar de sua cabeça os estranhos pensamentos que tinha depois de ter visto, do outro lado da rua, com a mesma aparência de tantos anos atrás, o homem com quem tivera um caso em sua juventude. A única pessoa que amara com todas as células, todos os neurônios, todos os poros e todos os fios de cabelo de seu corpo. Claudio sentou-se frustrado na cama e chorou. Adormeceu em prantos.

***

– Fuja comigo! – Seu sorriso era inebriante e a proposta parecia tentadora quando seguida dele. – Vamos para algum lugar ensolarado, onde faça bastante calor e eu possa ver você andando sem camisa pela casa o dia todo. – Os olhos dele brilhavam, e acompanhados daquele sorriso, tudo parecia possível.

– Nós moramos no litoral, impossível achar algum lugar mais ensolarado e mais quente que aqui. – Tinha medo, por mais que sua vontade de ir embora com Pedro fosse gigantesca.

– Então vamos para um lugar bem frio, assim eu poderei te abraçar o tempo inteiro.

– Você não desiste, não é mesmo?

– Não desisto até conseguir o que quero e eu consigo. Você é prova disso, Claudio. – Um meio sorriso deliciosamente malicioso surgiu em seus lábios.

– Não posso e você sabe bem disso. Em três meses me caso com Laura e até nos jornais a noticia já saiu. – Nesses momentos odiava ser o filho de um dos maiores empresários do país, o herdeiro de um império, como diziam os tabloides.

– Fodam-se os jornais e foda-se Laura. Você não a ama, ela própria sabe disso. Seu coração bate por mim Claudio.

***

Acordou suando e com o corpo terrivelmente dolorido. O sol já estava alto.  Tomou seus muitos remédios de rotina, mais alguns para as dores e saiu para a rua. Queria vê-lo novamente. Seu coração batia com força enquanto caminhava e conforme a brisa leve, carregada de maresia, batia em seu rosto, formulava diversas hipóteses. Uma pessoa qualquer, que por culpa de seus olhos, gastos pela idade, confundiu com o antigo amante. Um filho, não, um neto de Pedro, que poderia estar morando por ali. Apesar de que, depois de terem se separado nunca mais ouvira nenhuma noticia a respeito dele, e finalmente a teoria que mais o assustava, a de que teria visto o espírito do homem que amou. Espírito que veio a terra anunciar que seus dias haviam chegado ao fim e que a sua covardia de jovem tolo seria cobrada.

Sentou-se num café para descansar. As juntas ardendo em punição da corrida desenfreada daquela manhã. Bebericava da caneca e revivia seus anos em sua mente. Abandonou a pessoa que havia feito de tudo pra ficar com ele e casou-se com uma mulher que não amava. Foi feliz? Sim, muito. Teve filhos maravilhosos, conheceu o mundo, ganhou muito dinheiro, gastou muito dinheiro e deu muitas risadas, o segredo para uma vida longa, dizia. Mas no meio disso tudo nunca deixou de sentir, todos os dias quando punha a cabeça no travesseiro, o arrependimento por um dia não ter seguido seu coração. Seus pensamentos se desvaneceram quando viu pela janela a figura de Pedro entrando na livraria na calçada oposta. Já estava na porta quando o garçom o chamou, alertando-o de que não havia pagado sua bebida.

***

                Eles estavam jogando xadrez. Era impossível vencê-lo, ele era um verdadeiro gênio naquilo, mas Claudio adorava perder, porque assim, era consolado da melhor maneira possível.

– Rainha na E7. Xeque-Mate. – Gritou ele da cozinha, rindo descaradamente.

– Como pode me vencer sem nem mesmo estar na frente do tabuleiro. Isso é injusto. Injusto e sobrenatural! – Gritou perplexo em resposta.

– Eu te conheço, você é previsível e eu sou o campeão estadual. – Ele voltava com duas xícaras de chá gelado. – Ahh, não faça essa cara. Você sabe que eu não resisto. – Ele colocou as xícaras sobre o tabuleiro e se inclinou, beijando Claudio.

– Eu perco de propósito, meu objetivo na verdade é esse. – Puxou Pedro para mais perto de si e os dois se enlaçaram. Enquanto se abraçavam ouviu um sussurro em seu ouvido.

– Eu te amo. – Era a primeira vez que ouvia aquelas palavras. Sem se conter irrompeu em lagrimas. Os sentimentos se misturando e explodindo em ondas de emoção dentro dele.

– Eu também. – Sussurrou de volta.

***

                – Com licença mocinha. Acabou de entrar nessa loja um rapaz alto de camiseta preta, você saberia me dizer que direção ele tomou? – Percebeu que estava tremendo.

– Ele acabou de sair da loja senhor. Virou à esquerda.

Saiu sem nem agradecer, andava o mais rápido que podia. Seus olhos percorrendo cada face que encontrava na rua. Se a moçinha da livraria também o viu, então não podia ser um espírito, concluiu. A semelhança com o velho namorado era assustadora, o que só poderia indicar uma coisa, o rapaz era parente de Pedro. Acelerou o passo, queria encontrar o moço e perguntar de sua família, se seu avô ainda era vivo. Pensou tê-lo visto de relance ao longe, sentado com um livro na mão no calçadão da praia. Seguiu naquela direção. Ao chegar lá não o achou.

Continuou andando, ignorando as dores que subiam por suas pernas, a respiração ofegante e o suor que lhe escorria em bicas pelo rosto.  Sentou-se, odiando seu corpo fragilizado que não lhe permitia executar uma busca eficaz. Vindo em sua direção, viu um rapaz com um enorme guarda-chuva.

– O senhor esta bem? – O rapaz parou ao seu lado e fez sombra. Estava usando um uniforme de hotel.

– Estou sim filho, só um pouco cansado. O sol hoje está de rachar.

– Por isso eu estou com esse guarda-chuva. Você o quer emprestado? Assim não vai se queimar nem correr risco de passar mal.

– Fico muito agradecido. Gentileza é uma coisa rara hoje em dia. Diga-me em qual hotel trabalha e vou até lá com você. Vou contar ao seu gerente sobre sua generosidade.

– Hotel Coração da Praia senhor, logo ali na frente.

***

                – Você não pode estar fazendo isso comigo. Não pode, não é justo! – Ele chorava, caído no chão ao lado da cama.

– Tente entender Pedro, por favor! Se eu fugir contigo não teremos como nos sustentar, ainda estamos no segundo ano de faculdade. Se permanecermos juntos eventualmente alguém ira descobrir, serei deserdado, vamos perder tudo.

– Não, não, não… – Ele balbuciava. – Alguma solução deve existir! Meu tio tem uma fazenda no interior, poderíamos ir pra lá, eu peço a ele um pedaço de terreno, viveremos tranquilos. – Estava desolado.

– Eu nunca nem vi uma enxada em minha vida, como poderemos viver numa fazenda? Sinto muito, não existe outra opção. – Lutava contra as lagrimas, mas aquilo precisava ser feito, seu casamento aconteceria em duas semanas e depois disso assumiria um alto cargo na empresa do pai.

– Claudio! Depois de tudo o que eu fiz para estar com você… Eu te amo, não consigo me imaginar ao lado e outra pessoa. EU TE AMO… Quero viver com você. – Ele se levantou e abraçou Claudio, que se desvencilhou.

– Eu também te amo, mas uma vida para nós dois é impossível. Adeus Pedro. – Ele virou as costas e as lágrimas começaram a escorrer. Correu até chegar em casa.

***

                Hotel Coração da Praia. Deu um pulo. Era ali que os dois costumavam se encontrar. Quarto 212. Sentiu um arrepio e uma pontada de esperança percorreu o seu corpo. Não, seria muita coincidência. Praticamente impossível, mas resolveu visitar o lugar mesmo assim. Atravessou a rua em direção ao hotel. O lugar continuava o mesmo e seu coração acelerou ao entrar ali e lembrar-se dos dias em que chegava com Pedro, fingindo estarem bêbados sem ter como ir para casa, só pra poderem passar uma noite juntos. Foi até o balcão e perguntou pra uma mulher se ele poderia andar por ali, pois foi há muito tempo um assíduo frequentador e queria relembrar sua juventude. Ela sorriu emocionada e disse pra ele sentir-se vontade.

Subiu até o segundo andar e foi direto para o quarto 212. Encostou o ouvido na porta. Ouviu vozes. O coração batia cada vez mais rápido. Suas mãos tremiam como nunca, tentou bater, mas o som que fez foi praticamente inaudível. Arriscou a maçaneta. Abriu. Olhou para o hall, continuava o mesmo, porem os móveis eram mais novos. A luz do quarto a sua frente estava acesa. Devagar foi andando até lá.

– Rainha na E7. Xeque-Mate. – A voz… Aquela voz… Seria possível? – Mais um dia mais uma derrota, eu me pergunto quando você finalmente vai desistir.

– No dia em que conseguir vencer. – A voz que respondeu era grave, fria e ressoava de uma maneira aterrorizante.

– 60 anos e você continua vindo e perdendo toda vez. Você pode acabar com isso quando quiser. Deixe-me em paz de uma vez. – Ele falava num tom brincalhão, como quem fala com um amigo.

– Eu lhe dei uma chance e lhe fiz uma promessa. Eu levo isso a sério. – A voz congelava o sangue e apesar da curiosidade Claudio não conseguia reunir a coragem necessária para adentrar o quarto e ver a quem ela pertencia.

– Infelizmente a sorte parece lhe faltar, velho amigo. – Pedro soava o mesmo de décadas atrás, um jovem rapaz orgulhoso de suas habilidades e dono de uma confiança inabalável.

– Hoje não, hoje a sorte me mandou um presente. – Cadeiras se arrastaram. Peças caíram no chão. O pavor percorreu Claudio quando ele viu pelo portal iluminado do quarto a sombra que vinha em sua direção.

Quando a foice desceu, ele não sentiu o golpe no corpo, foi como se o tivesse atravessado, ceifando aquilo que estava em seu interior e não simples carne e osso. Antes que seus olhos se fechassem e ele caísse no chão, atrás da capa negra que esvoaçava na sua frente, pode ver o rosto que a muito desejava rever. Pedro continuava jovem e belo, como o tinha deixado no dia em que se separaram. Seus olhares perplexos se cruzaram e o arrependimento deixou o corpo de Claudio, sem nunca ter a chance de se redimir.

 

 

 


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