“Ouvi um ruído, fraco, monótono, branco.”

Experimentos com drogas e acidentes químicos secretos do governo lentamente tornam a pacata vida do pai de família Jack Gladney num misto de paranoia e inconsequente medo da morte.

Don DeLillo tem uma escrita tão fluída e rítmica que consegue prender sua atenção sem evocar nada fantástico, apenas o corriqueiro e o cotidiano. A crítica é suave e chega a ser quase indolor: O consumismo, o capitalismo, o governo, a vida acadêmica, a vida familiar, tudo isso é mostrado com muita naturalidade. Demora um pouco pra você pegar essa crítica, mas quando a entende percebe que permeia cada palavra do livro. Uma hora Jack está comprando coisas, na outra tem o impulso irresistível de jogar coisas fora. Escrever sem escrever. Críticas que são, entre outras palavras, brancas. Tudo o que torna Ruído Branco um romance magistral está ali para ser interpretado pelo leitor. Nós apenas lemos o relato de Jack Gladney contando seu cotidiano, sua relação com o academicismo e a sua família simpsoniana de classe média.

Vale a pena lembrar que esse ruído branco permeia todo o livro, está presente em todos os personagens (todos extremamente cativantes), está presente na cacofonia, está presente nas conversas vazias, está presente em toda parte. É um vazio de barulho, longe de ser um silêncio de verdade, que jamais desaparece. Assim como as críticas, ele também está escondido em cada palavra, fantasmagoricamente presente, vindo à tona especialmente no clímax, quando já não pode mais ser ignorado e o próprio protagonista o cita.

Fisicamente falando, um ruído branco é “um sinal sonoro que contém todas as frequências na mesma potência. Pode ser o som da televisão ou rádio quando não estão sintonizados ou até mesmo o barulho constante do ar-condicionado.”

No meio desse relato cotidiano, ocorre de repente, o fantástico. Ela vem devagar e monstruosa, uma nuvem tóxica (literalmente), lindamente descrita, um horror palpável, real, mais que crível, possível. Tão americano. E também tão nós, todos nós. E até mesmo em sua crise, lá está o ruído branco. O vazio humano.

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Ruído Branco – Don DeLillo
320 páginas – Companhia das letras