Here Comes the Sun conseguiu me apresentar os Beatles, George Harrison e uma busca divina, tudo em pouco mais de 400 páginas apaixonantes.

Sinopse: Uma história como nenhuma outra: em meio à fama avassaladora dos Beatles, a busca por Deus. Nesta biografia íntima, o historiador Joshua M. Greene fornece um relato comovente de uma das pessoas mais extraordinárias do século XX. Em “Here Comes the Sun”, a jornada espiritual e musical de George Harrison é revelada em detalhes, sem o imediatismo de outras publicações sobre ele ou os Beatles. Como seus companheiros de banda, Harrison escapou das ruas proletárias de Liverpool, sobreviveu a uma dura aprendizagem em boates underground e se tornou um dos mais famosos e bem-sucedidos artistas da história. Porém, a desilusão com o preço e com as recompensas da fama resultaram na magnífica jornada que transformaria sua música e redefiniria o resto de sua vida.

À caráter lendo Here Comes the Sun (Gracias especiais, Kripa, pela roupa xuxu!).

Nunca fui uma fã inveterada de Beatles, nem ouvi muito, nem li muito. Então comecei a ler essa biografia como alguém verdíssima no mundo beatlemaníaco. haha

“Essa é a história de um homem que renunciou a uma das mais espetaculares carreiras da história do entretenimento pela meta de ver Deus face a face e que obteve um êxito maior do que as suas mais altas expectativas. A trilha sonora de sua jornada espiritual começa com as explosões de uma batalha e se encerra 58 anos depois, com as harmonias da paz eterna.”
Here Comes The Sun, Joshua M. Greene, p. 12-13

Greene escreve de forma sucinta, clara e bem objetiva. Tanto que menciona logo no início do livro que assim o fez por conta do próprio Harrison ter sido assim em vida (a parte boa de ler uma biografia é que não é exatamente um spoiler saber se a pessoa está viva ou não ou os elementos da vida dela haha), eu particularmente gostei dele querer refletir a própria personalidade do biografado no estilo do livro.

Não sabendo nada sobre os Beatles, devo dizer que fiquei diretamente influenciada pelos relatos e acontecimentos descritos no livro (ou seja, não entendo como as pessoas são capazes de gostar do John Lennon [olha a opinião impopular passando na sua frente], e tenho certeza de que Ringo é como um NPC de um jogo de videogame), e surpresa de como a vida dos 4 Beatles é simplesmente um filme. Tem ação, reviravoltas que seriam extramente clichês (sucesso rápido e instantâneo, fama que vai e volta do nada; fãs desmaiando enlouquecidas), em 2/3 anos eles já eram OS Beatles. Não faz sentido. Mas simplesmente é.

“A química entre os integrantes da banda era excitante, engraçada, contagiante, e os shows em outros lugares aumentavam. Ainda assim, apesar da crescente popularidade dos Beatles, nenhum empresário aparecia, a imprensa não cobria suas performances e nada indicava que eles iriam além dos limites daquele pequeno porão.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 50

Não sei se é possível entender a beatlemania como fenômeno que foi, como essa exceção maluca que até hoje ainda causa fervor ressurgindo do limbo de vez em quando (se bem que nunca foi verdadeiramente para o limbo… diria que é como lava saindo do vulcão, ela solidifica quando esfria, mas é só dar um toquinho que tchanã, quentíssima por dentro). Mas deu pra dar uma luz descrevendo como era o mundo dessa época, e o que os Beatles estavam significando em tudo aquilo.

“Os adultos não conseguiam oferecer uma explicação sobre o porquê do mundo estar tão turbulento e confuso, deixando os jovens com a tarefa de definirem para si mesmos quem eles eram e em que acreditavam.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 73

O livro prova que você não precisa de firula pra gostar de alguém, antes mesmo de chegar ao final do livro, você já se sente como alguém que viveu tudo aquilo com Harrison, que entende os tropeços, as babaquices, o crescimento,  bom humor, a generosidade e a bondade inerente. E também as frustrações e prisão que era a vida de um Beatle.

“Até então, George sentia poucos inconvenientes no sucesso, mas um em particular estava começando a preocupá-lo. “O que me perturba”, disse no mês junho à revista juvenil Rave, “é que às vezes as pessoas nos tratam como se fôssemos objetos e não seres humanos”.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 76

O encontro e a posterior busca de George por Deus é simplesmente apaixonante. É como achar a função da sua vida e poder seguir em direção à ela (isso não significa que dúvidas sobre o caminho não tenham existido, mas Krishna realmente foi colocando as pessoas certas no caminho dele…). O sentimento de ter de contagiar as pessoas com esse mesmo fervor também pôde ser sentido em todas as músicas, shows, atitudes posteriores a esse encontro.

“George certa vez descreveu a si mesmo como alguém que chegara ao cume do mundo material, encontrando todas as pessoas que valiam a pena conhecer e fazendo tudo o que valia a pena ser feito, apenas para descobrir que havia muito mais do outro lado.”
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 88

Mais fotogênico que Jovem Link jamais.

Aliás, taí uma questão maravilhosa: ler o livro ouvindo as músicas citadas foi ótimo. Como ele perpassa a produção musical dele (que, aliás, não é possível separar da pessoa, afinal foi a forma de tentar alcançar Deus), a opinião de terceiros, as músicas no topo das paradas, tudo, é possível achar online, então foi uma belezura. Deu pra ouvir tanto um tico de Beatles quando bastante da produção solo dele (Govinda ainda dá arrepios, e My Sweet Lord é realmente uma lindeza). E lógico, que ver mais sobre Ravi Shankar, mesmo que de pouquinhos, foi lindo (o álbum Passages do Ravi ainda é meu preferido).

Conhecer George pelas músicas dele é conhecer algo intrínseco a ele.

Agora, em relação à tradução, eu senti que por vezes ela acabou sendo muito literal, algumas coisas só fazendo sentido porque eu conhecia algumas expressões em inglês. E por vezes senti que a progressão da cronologia dava umas escapadas, Greene começa um parágrafo falando, por exemplo, de 1977, e de repente pula pra 1992, ou 86… e você fica sem saber se aquela informação é pertencente a alguma dessas datas ou nenhuma delas. Isso começa acontecer depois da metade do livro, te deixando meio confuso.

Mesmo com as falhas que senti, o livro não sai prejudicado. Sendo um retrato apaixonante da busca de um homem por Deus.

“Talvez fosse uma continuação de algo da história”, disse. Nós nos despedimos. Conectar-se com outro ser humano que apreciava o mistério das coisas era um presente, e concordamos em manter contato. “Ou talvez”, ele falou enquanto meu filho e eu parávamos em frente à porta, “aquilo que George começou talvez seja simplesmente bondade sem causa”.
Isso soava correto.
Here Comes the Sun, Joshua M. Greene, p. 396

Here Comes the Sun
Autor: Joshua M. Greene
Editora: Coletivo Editorial
Páginas: 414
Link do Skoob

 

PS.: Uma coisa que achei excelente foi ver que enquanto tudo isso estava acontecendo, Radanath Swami também estava tentando chegar na Índia! Para quem não sabe do que estou falando, é uma boa dar aquela relembrada na resenha de A Caminho de Casa, pra conhecer outro lado da Índia, um lado vivido pelo (até então) anônimo Swami. Dá pra ter noção de duas facetas históricas da década de 60/70.

Ps.²: Tiramos as fotos para essa resenha lá em Nova Gokula! Uma fazenda hare que recomendo visitar quem puder. 🙂 Direto tem festivais belezuras por lá. E claro que você sempre confere nossas fotos de resenha lá no nosso Instagram e os trechos selecionados do livro no Tumblr.