Lima Barreto é um poço maravilhoso de ambiguidade, atualidade e invisibilidade. Tudo num mix extremamente brasileiro e riquíssimo.

 

Bem, com a proximidade da famigerada FLIP, que tem como homenageado Lima Barreto esse ano, eu comecei a estudar um pouco da obra dele num curso que faço de dramaturgia. A única coisa que tinha lido dele tinha sido Triste Fim de Policarpo Quaresma por motivos escolares. Não estudamos o contexto de vida dele, nem o drama, só a história mesmo, porque, né… tem que acertar umas perguntas sobre o enredo no vestibular. E já está de bom tamanho.

Aí, nesse curso, achamos que seria interessante tentar conhecer mais sobre a relação que Lima tinha com o teatro (isso se tinha de qualquer forma) e começamos a ler o conto mais conhecido: O homem que sabia javanês. Pegamos depois a coletânea de contos, as coletâneas de crônicas (porque como esse homem escreveu! :O e estou bem ansiosa pra dar uma lida na biografia que vai sair pela Cia das Letras, OI, CIA DAS LETRAS! TE PASSO MEU ENDEREÇO SE QUISEREM!). Logo de cara quando você lê as coletâneas vê algumas contradições.

Na primeira, dizem que ele escrevia errado; aí, em outra análise dizem que na verdade o problema era do processo de edição, editores não revisavam e cometiam erros estrondosos; ou que a letra de Lima era uma tragédia e isso ocasionava em erros também…

Uma pessoa que tinha uma biblioteca enorme, sabia vários idiomas, deixou catalogado tudo que não conseguiu publicar, guardou várias de suas publicações e ainda mapeou os erros e onde haviam impresso de forma errônea… não me parece escrever tão errado assim.

É interessante como Lima Barreto é um retrato de uma época de transição, como a que estamos vivendo agora. O golpe da República havia estourado, ele descobria que o ser negro no Brasil não ia mudar muito com essa mudança de governo, que ser bom não implicava em justiça… e ao mesmo tempo ele era a pessoa mais ambígua que já vi.

Ele claramente não era da elite. Inclusive a criticava ferozmente em toda oportunidade que podia. Aliás, criticar era o que mais fazia, criticava a política, o teatro, a sociedade, a literatura, o país, machismo, racismo… e a lista vai. Como cronista a maior parte de seus assuntos eram críticas a algo ou alguém. E, ao mesmo tempo, tentou 2 vezes entrar para a Academia Brasileira de Letras (sendo negado em todas elas, e ia tentar a terceira, antes de desistir), aí saía decepcionado, criticava horrores, o tempo passava e lá ia ele de novo.

Então ao mesmo tempo em que odiava a elite, queria fazer parte dela. Mesmo fazendo sucesso e sendo reconhecido por quem estava na cena ‘underground’ da literatura e afins, não se sentia (ou não queria) fazer parte daquilo (inclusive, no mesmo ano em que morreu, 1922, recebeu uma carta dizendo que estava sendo homenageado na Semana de Arte Moderna (aquela mesmo), achou meio ~tosco, porém agradeceu e tudo o mais, mesmo tendo achado que a revista (a Klaxon) que recebeu era inicialmente de automóveis. HAHA).

Ele teve uma vida escrota. Não sei se existem palavras melhores pra isso. Herdou a loucura do pai, tinha problemas com álcool, direto ia ficar internado no sanatório, pois ficava alucinando pelas ruas (inclusive escreveu Cemitério dos Vivos em uma dessas internações e, minha nossa, que título coerente), pegou essa desilusão de que teria espaço sendo bom, mas infelizmente nascera com a cor errada, e isso é imperdoável na sociedade da época (ainda hoje…). Ele fez um retrato maravilhoso da sociedade, tinha uma visão de futuro incrível e uma tristeza plena de quem vê além.

Lima era fantástico. Era tudo que sua invisibilidade atual não diz. A escrita dele é atual, é diferente de tudo. Escrevia maravilhosamente, era afiadíssimo nas suas análises da sociedade (que quanto mais eu leio, mais vejo semelhanças do período atual), lia horrores. Por mais que muitas revoltas dele sejam extremas demais ou vinculadas à revolta dele com tudo e todos por não ser aceito em nenhum lugar que queria (por exemplo, em várias crônicas onde ele execra Artur Azevedo e João do Rio, que me abismaram). Ele é muito mais que o Policarpo que li no ensino médio. Muito mais que o homem que sabia javanês. E a parte boa de estar sendo homenageado na FLIP é que um pouco dessa invisibilidade que passou na vida toda vai ter a chance de ser um pouco iluminada (até porque eu ainda não sei quem é Lima Barreto…).

E, como magnífica pessoa ambígua e complexa que é, ainda pretendo visitá-lo no xiquetérrimo cemitério em Botafogo, já que, pelo menos morto, conseguiu ser aceito onde queria.

 

Como aqueles plus lindezas de dicas de leitura, tem 2 volumes FANTÁSTICOS de crônicas de Lima publicados pela Editora Agir (que vai da esperança de um Lima novinho, até a desilusão dele adulto) e a coletânea de contos (também fantástica!) pela Cia das Letras. E também tem uma adaptação belezura d’O Homem que sabia javanês:

 

Fonte da foto usada na capa: Grupo Companhia das Letras.