“Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e a se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de o resto.”

A excelente história de amor entre Julio e Emilia, dois estudantes que se conhecem e iniciam um relacionamento que se sustenta em torno dos livros que leram e não leram. Eles tecem a sua história baseados em conceitos abstratos, cientes de que ela será uma história breve.

Bonsai foi uma surpresa maravilhosa. Em uma narrativa coerente com a realidade, Alejandro Zambra passeia pelo mundo dos relacionamentos em trânsito, da fugacidade da vida, das relações com identidade cultural e nacional.

A obra já cativa logo no primeiro parágrafo ao apresentar um spoiler pesadíssimo sobre o final, que não apenas estabelece o ritmo rápido da leitura a porvir, mas também que já dá a dica ao leitor: Eis uma personagem a qual você não vai querer se apegar (obviamente você se apega). Esse ritmo estabelece uma leitura rápida, e como isso faz parte do seu conceito, o livrinho (apenas 96 páginas) acaba em poucas horas. Temos a impressão de que Zambra, em sua estreia no mundo literário, cuidou com carinho da estrutura para que esse conceito não se perdesse, embora a breve mudança de foco para os personagens secundários eventualmente contribuísse para diminuir a empolgação inicial que deu o primeiro gás à leitura.

As referências literárias de Emilia e Julio são ótimas (os dois são estudantes de letras e seu relacionamento é pautado em livros). Repleto de um simbolismo claro e apaixonante esse é um daqueles livros em que o importante não é o desfecho, e sim o seu conteúdo por inteiro. O desenrolar da história serve como um delicioso pano de fundo para a reflexões do autor sobre os relacionamentos amorosos, solidão, amor e vida. Zambra vai além: O ritmo e estilo de vida dos personagens e também dos seus relacionamentos é um espelho bastante fiel da realidade, do jovem adulto atual preso em sua bolha universitária e em busca de emprego até a superioridade intelectual do (tão frágil) graduando e graduado. Não é um livro que te ensina. É um livro com o qual você se identifica.

Um livro feito pra pessoas que leem e se relacionam, mas acima de tudo, que leem, afinal, os protagonistas são “jovens tristes que leem romances juntos, que acordam com livros perdidos entre as cobertas”. A vida e a literatura se confundem de todas as formas quando você percebe, não apenas que essa é uma história fácil de se identificar, mas também que Bonsai foi escrito por um dos personagens. Tudo isso contribui para que esse livrinho seja extremamente tocante, em toda a sua fugacidade. Essa breve mistura de Medianeras com La La Land levou um belo 8 Gabos e meio.

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Bonsai – Alejandro Zambra
96 páginas – Cosac Naify