E Vitória caiu como uma luva pra resenha da semana que tem o dia 8 de março como meio, com personagens femininas fascinantes, concedeu uma gama de reflexões maravilhosas.

Sinopse: Joseph Conrad é um escritor singular na língua inglesa. O estilo único é resultado de sua formação poliglota e multicultural: Conrad nasceu na Polônia, foi educado em polonês e em francês, além de ter estudado latim, mas escolheu o inglês para escrever, idioma que só foi aprender aos vinte e um anos. Isso lhe confere um manejo incomum da língua, pois sua prosa evidencia a cadência latina. Suas frases ondulantes criam um ritmo nunca antes visto, selvagem e – ainda assim – sofisticado.
Vitória foi finalizado em maio de 1914, mas publicado apenas no ano seguinte, já em meio à Primeira Guerra Mundial. O livro traz temas recorrentes na obra de Conrad, como a solidão, a inconformidade com o mundo, o conflito entre o mal e a esperança. Seu protagonista, Axel Heyst, instala-se em uma ilha no sul asiático, em total isolamento, após um fracasso comercial que não abala sua aceitação resignada do destino. Mas a aparição de uma jovem musicista desperta nele um instinto de proteção que o levara a uma crise de identidade, e mais tarde, ao enfrentamento de grandes perigos. (Sinopse do Skoob)

Ah, Joseph Conrad. Você fez algo muito complicado, que foi despertar uma vontade louca de ler todos seus livros. HAHA

Recebi esse livro de um dos meses da TAG, a capa era bonitona e talz, comecei a ler. E pelo amor… Que livro, senhoras e senhores. Como esse homem escrevia. E como todo esse caminho de vida dele, começando na Marinha, vendo o genocídio de uma Europa dominadora na África e Ásia, e depois finalmente retornando à escrita construiu a visão dele de mundo.

O jeito como ele usa as palavras é apaixonante. E o modo como ele conduziu uma trama aparentemente simples é delicioso. Não tenho uma palavra melhor para descrever.

“Jamais um sentimento sincero fora desprezado por Heyst. Mas ele era incapaz de demonstrar efusividade e sentiu agudamente esse seu defeito. A polidez absoluta não é o tom correto para um colapso emocional.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 21

Eu poderia centrar essa resenha na construção riquíssima das personagens, do ambiente, da naturalidade como somos apresentados às ilhas fictícias (descobri só depois que elas não existiam, mas que lugar melhor pro protagonista se isolar do que em um lugar na imaginação do autor?), da visão de solidão como refúgio pleno de qualquer interação, de um mecanismo de proteção absurdo e (por que não?) impossível contra tudo e todos; poderia também falar de como os diálogos são maravilhosos e como se abre toda uma cultura e mistério que te fazem querer ir correndo no google ver mais sobre tudo.

“Por quinze anos Heyst havia vagado, invariavelmente cortês e inacessível, e, em troca, foi geralmente considerado um ‘camarada esquisito’ pelos outros.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 105

Mas não vou. Vou aproveitar que essa resenha está saindo no dia 8 de março para centrar as discussões nas personagens femininas desse livro. Não existem muitas mulheres pra começar… Mas as que existem são simplesmente maravilhosas, e de formas completamente diferentes. Vou focar na Sra. Schomberg (que, aliás, não tem nome, ela é chamada de “Sra. Schomberg” o livro todo) e na Lena. Até esse ponto, poupei os spoilers, maas, se quiserem realmente ter alguma surpresa quanto à essas duas, acreditem somente no começo dessa resenha e vão ler o livro antes de voltar aqui (que já é domínio público, corre lá).

“Era comum ele iniciar suas intermináveis denúncias no mesmo salão de bilhar onde a Sra. Schomberg sentava-se entronada como de costume, engolindo soluços, ocultando humilhações torturantes e terrores abjetos por baixo de seu sorriso estúpido, calculado e eterno, o qual, tendo sido dado a ela pela natureza, era uma excelente máscara, uma vez que nada – nem mesmo a morte, talvez – poderia arrancá-lo do rosto.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 108

A Sra. Schomberg é apresentada como uma “estátua chinesa” (aliás, outra discussão super premente é a visão dos chineses no livro! Mas isso renderia outro post…), passiva, imóvel, presa num casamento simplesmente horroroso, opressor, com um homem que lhe cortava qualquer resquício de personalidade, agressor, que tenta assediar Lena logo que a vê chegar em seu hotel. Em suma: um babaca completo. E muito atual.

Nesse ponto, Conrad poderia tê-la ignorado e mantido como uma mera decoração do hotel de Schomberg. Mas não. Pelos olhos de Davidson, um capitão que auxilia Heyst em alguns momentos, vemos um outro lado da Sra. Schomberg. Seu lado humano, seu lado oculto que lutava para se manter vivo numa relação de assédio moral e físico.

“Quanto à Sra. Schomberg, ficou sentada lá como uma estátua chinesa. Davidson estava boquiaberto, tamanha era sua admiração. Agora, ele acreditava que a mulher vinha fingindo isso há anos. Ela sequer piscava. Era formidável! O discernimento que ele atingira quase o assustava; ele não conseguia superar sua admiração por saber mais da verdadeira Sra. Schomberg do que qualquer outro nas ilhas, incluindo o próprio Schomberg. Ela era um milagre da dissimulação.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 74

Eu acho maravilhosa a admiração de Davidson por ela. Ele frisa isso em simplesmente todas as oportunidades que tem para estar presente no hotel. E a própria Sra. Schomberg tem um protagonismo, e as chances que ela encontra de protagonizar, em acontecimentos definitivos para a história. E tudo isso no background. Ela é uma mulher que sofreu (e vai sofrer, afinal, Schomberg ainda está aí e venenosíssimo) tanto e mesmo assim, tinha uma força oculta incrível que, por mais que nunca saibamos de fato suas intenções (se para manter essa relação horrível num nível tolerável, ou para ajudar de fato Lena) é impressionante a sua construção como personagem e o modo como ela é vista e retratada.

Vamos à Lena agora.

“Suas faixas carmesins davam um falso toque de alegria para o ambiente esfumaçado do salão de concertos, e Heyst sentiu uma súbita pena de tais criaturas, exploradas, desesperançadas, desprovidas de charme e graça, cuja sina de desanimada dependência conferia aos seus traços grosseiros e tristes um aspecto comovente.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 85

Lena é uma garota jovem, vítima do progresso desenfreado de uma Londres pós II Revolução Industrial e provavelmente pré-guerra. Ela tem um histórico de ter estado nas ruas, de ser parte de uma orquestra itinerante que viaja por aí com várias mulheres que tocam (e provavelmente faziam outros serviços de forma obrigatória por conta de um chefe ascorento que as arrastava de um canto a outro do mundo). Certamente Conrad deve ter visto isso de perto, tendo viajado tanto. E dói saber que isso também é atual.

Ela é loucamente assediada por Schomberg em todo momento que ele pode. E ele tem a pachorra de ter aquela auto-estima bizarríssima de achar “mas é claro que ela vai me querer, eu sou incrível” e isso justificar toda uma atitude ridícula de assédio para cima dela. Tanto que quando ela foge com Heyst, ele pensa que é culpa do sueco, e não de que ele pode ser um ser humano simplesmente desprezível. Olha, mais uma personagem incrivelmente atual em Vitória. Infelizmente.

Ela foge de forma desesperada para Heyst. E é bizarro como essa questão de ser de outra geração e de outro mundo pode tornar duas pessoas que se gostam tão distantes nos diálogos. Quase tudo que Heyst fala é entendido de uma forma diferente por Lena, e vice versa; e mesmo assim, eles acabam tendo uma sintonia linda no livro.

Ela é uma das personagens que mais tenta, que mais confia e segue no livro. E seu crescimento e evolução nesse livro trágico é algo maravilhoso. É um livro incrível com mulheres incríveis. E que super casou com uma resenha pra esse dia 8 de luta. De muita luta. Já que todos os personagens são tão atuais ainda que chega a doer.

Para finalizar, vai um trechinho do posfácio do livro por John Gray que chegou a arrepiar a alma da pessoa aqui:

“A última palavra pode ser ‘Nada!’, mas é Lena quem dá o título ao romance. Se há qualquer vitória aqui, pertence a ela. Ela é o pivô da narrativa, invulnerável no fim, pois não é movida pela desconfiança ou pela incerteza, e é Heyst quem sai finalmente derrotado.”

Vitória, Joseph Conrad, p. 399, posfácio por John Gray.

Vitória
Autores: Joseph Conrad
Editora: TAG Livros e Dublinense
Páginas: 400
Link do Skoob

Hoje está acontecendo a Greve Internacional de Mulheres. Acompanhem nas redes as hashtags #WeCanNerdIt #GreveInternacionaldeMulheres #8M e as postagens e mobilizações que estão sendo feitas por tanta gente incrível. 🙂

Para que no futuro, mulheres como a Sra. Schomberg e Lena não precisem ser tão fortes em situações tão atuais.