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Como traduzir o título? Sangre de Satén ou Sangre de raso? Levei mais de uma semana pensando nisso. Foi então que de repente desabou em cima de mim todo o horror a Paris, todo horror à língua francesa, à jovem poesia, à nossa condição  de metecos, à nossa triste e irremediável condição de sul-americanos perdidos na Europa, perdidos no mundo, e então soube que não iria poder continuar traduzindo Sangre de Satén ou Sangre de Raso, soube que iria terminar assassinando Bulteau em seu estúdio da rua de Téhéran e depois fugindo de Paris como um desesperado. De modo que decidi não levar a cabo essa empresa e, quando Ulisses foi embora (não me lembro exatamente quando), parei de frequentar para sempre os poetas franceses.

Através de um diário e uma série de entrevistas, acompanhamos pela ótica do poeta García Madero os anos da vida de Arturo Belano e Ulises Lima, maiores poetas do realismo visceral no México, entre os anos de 1975 e 1996.

Citando Borges, Cortázar e até Don Delillo, Bolaño traça de maneira magistral e encantadora (e assim entrando fácil e definitivamente no meu top5 escritores favoritos) o longo período da vida de dois poetas, entre suas vidas errôneas de vagabundos mexicanos rodando o mundo e a busca da desaparecida poeta Cesárea Tinajero. Os arroubos de genialidade do autor garantem que cada coadjuvante conte sua história (e são muitas, por volta de 50) e em cada um você possa sentir um gama de emoções diferentes. É fácil empatizar com a maioria, pois cada um deles tem uma humanidade peculiarmente identificável e até mesmo as desventuras mais triviais podem desencadear um suspiro. De maneira extremamente convincente e ambiciosa, viajamos por toda parte do mundo, conhecemos casas e bares de todas as classes sociais.

Bolaño encarou o livro como “uma carta de amor à sua geração”. Temos sorte por podermos lê-la, especialmente quando são citados personagens, lugares (muitos) e situações, mesmo q apenas por cima, do livro 2666 (lembram-se da minha primeira Resenha Rapidinha?), sua vindoura e póstuma magnum opus.

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Os Detetives Selvagens – Roberto Bolaño
624 páginas – Companhia das Letras