resenhas_diarios-V

“Em torno de cada semente de dossiê, portanto, desenvolvera-se uma nacarada massa de inferência, licença poética, forçoso deslocamento de personalidade para um passado que ele não lembrava e ao qual não tinha direito, a não ser o direito de ansiedade imaginativa ou cuidado histórico, que não é reconhecido por ninguém. Ele cuidava de cada concha marinha de sua fazenda submarina, terno e imparcial, movendo-se desajeitado em torno de seu cercado no leito do porto, evitando cuidadosamente o pequeno buraco bem no meio das conchas domesticadas, no fundo do qual só Deus sabia o que vivia: A ilha de Malta, onde seu pai morrera, onde Herbet nunca fora e da qual nada sabia, porque alguma coisa ali o mantinha à distância, porque o assustava.”

Ao mesmo tempo em que Benny Profane, recém dispensado da marinha, vive a sua irresponsável vida de schlemil e de ioiô humano juntando-se ao amalucado Whole Six Crew, um homem chamado Stencil parte em busca de uma misteriosa mulher conhecida como V. e reencarnada ao longo das décadas. A trama dos dois personagens se une (como numa letra V) em certo ponto.

V. é aquele absurdo pynchonesco: O humor é digno de um desenho animado do Pernalonga dos anos 70. A narrativa não é exatamente linear, ela segue um caminho, mas se desdobra em diversos galhos temporais. Aquele fluir onírico de Pynchon está presente: Tudo pode ser um sonho e com ele vem um sentimento de leve agonia crescente e obviamente, paranóica. A história é repleta de lacunas e ao mesmo tempo é completa. Há tantos personagens na trama que fica difícil imaginar alguém para cada um deles e isso prende a nossa atenção mais na literatura do que na história. Ele pega emprestado do mundo e da vida o fato de que há e não há respostas e razões para as coisas. É um retrato do caos. E ao ler você entra em contato com esse caos e percebe que o caos em si, não é barulhento e explosivo, mas lento, agoniante, venenoso e onipresente. Isso é V. afinal: A busca por algo e o sentimento terrível e inignorável de que não há o que buscar. Tudo regado de um humor negro nada risível.

O mistério de V. é praticamente indecifrável: V. é um lugar, V. é uma reencarnação, V. é principalmente uma mulher. Ao fim do mistério não há a certeza de que entendemos tudo. Só há a certeza de que a cada nova leitura, iremos descobrir alguma coisa nova. E isso pode tranquilizar nossa inerente busca por significado, ou pode (e é bem mais provável que irá) nos atormentar ainda mais.

É um livro raro hoje em dia, no Brasil. Como não são reeditados, por algum motivo, os livros de Pynchon costumam ser caros e inacessíveis. Essa edição da Editora Paz e Terra em especial é repleta de erros de ortografia.

Nunca li um livro tão difícil de classificar, então justifico o meu 8 pormenorizadamente: A escrita é impecável, e a leitura fluente. Os personagens são agradáveis e ao mesmo tempo desprezíveis, mas eles tem personalidade. A narrativa é feita de forma a chegar em algum lugar e chegar à lugar algum também é um lugar. O livro é carregado de um teor machista e a homossexualidade é freudiana(e triste)mente tratada de acordo com o pensamento da época. Não é um dos livros que você tem que ler antes de morrer, mas lê-lo é uma experiência bem interessante.

8

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V. – Thomas Pynchon
559 páginas – Paz e Terra