resenhas_diarios_laranja

“- Eu, eu, eu! E eu? onde é que eu entro nisso tudo? Será que eu sou apenas uma espécie de animal, ou de cão? – E isso fez com que eles começassem a govoritar ainda mais alto e atirar slovos contra mim. Então eu krikei mais alto ainda, krikando: – Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?”

Não cheguei a checar as outras edições brasileiras, mas esta específica tem um prefácio meio estúpido. Depois de algumas páginas enaltecendo o livro que está por vir (e utilizando a palavra homossexualismo, em pleno 2014, aff), vem algumas páginas que explicam um pouco das gírias na versão brasileira. De tudo o que abre essa edição, só o que realmente importa (além de um pouquinho da vida do Burgess e sua inspiração nas gangues) é o desejo do autor de ler o livro sem recorrer ao glossário no final. Nada mais justo, já que a linguagem nadsat acompanha o leitor do começo ao fim, povoando o livro de gírias (muito mais do que eu esperava). Talvez por isso ler Laranja Mecânica seja uma experiência única.

Passada numa Inglaterra distópica e violenta, a trama segue Alex (no livro, com 15 anos) antes e depois do inovador Método Ludovico, uma nova jogada do governo para erradicar a escolha que o homem tem entre o bem e o mal afim de purificar um pouco a juventude violenta daquela sociedade. Original e fascinante, o livro passeia por aquela temática incrível da teoria de associação e comportamento e o desejo de um governo quebrado em diminuir a violência com mais violência (tão presente nos dias de hoje, não é mesmo?). É interessante como você acaba empatizando com o narrador-protagonista, que também não é nenhuma beleza.

Diferente do (excelente) filme de Kubrick, há um capítulo final no livro, que nos ajuda a situar um pouco melhor a situação de Alex e enaltecer o fato de que a trama nada mais é do que um livro coming-of-age. Eu poderia até estabelecer um paralelo com O Apanhador no Campo de Centeio se os outros temas não passeassem pela violência numa sociedade futurista e errada, um fator que definitivamente encaixa Laranja Mecânica na prateleira das distopias. O livro também deixa um pouco mais fácil associar “Laranja Mecânica” com a “natureza mecanicamente modificada”, o grande tema da coisa toda. Obviamente é impossível não comparar o livro ao filme kubrickiano, mesmo tendo tantas diferenças, mas isso não significa que não dê para diferenciar o Alex de um e de outro e manter a reflexão moralidade x livre arbítrio.

Vale ressaltar que tem umas 500 edições diferentes desse clássico (como tudo o que vende, claro), e eu escolhi essa puramente pela capa, na minha opinião a melhor. (A tipografia maravilhooooosaaaa! E as letras, elas entram deeeentro do cérebro, aff, 10/10). Claro que vale a pena dar uma olhada na edição britânica e ver toda a gíria nadsat em sua glória.

Gostando ou não, esse é um livro essencial para a sua prateleira, mesmo que eu tenha dado apenas 8,5 Gabos de nota (na verdade é uma nota muito boa, poxa).

(Ah, não esquece de dar uma olhadinha na opinião da Camis sobre Laranja Mecânica!)

8,5

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Laranja Mecânica – Anthony Burgess
199 páginas – Aleph