ken kesey

Numa corda bamba entre loucura e sanidade, somos apresentados ao hospital psiquiátrico onde McMurphy, em Um estranho no ninho, tenta escapar de um sistema super atual.

Sinopse: Um clássico da contracultura que retrata os psicodélicos anos 60. O romance de Ken Kesey é inspirado em suas próprias experiências quando participou de pesquisas com drogas psicoativas no centro psiquiátrico do Menlo Park Veterans Hospital (Califórnia). Um Estranho no Ninho é protagonizado por R. P. McMurphy, um preso que escapa da condenação fingindo-se de louco. McMurphy é então internado em um hospício, sob a tutela da sádica Chefona, a enfermeira Ratched, que comanda os internos com suas rigorosas sessões de terapia e eletrochoque. Aos poucos McMurphy percebe que o hospício pode ser muito pior que a prisão, nesse novo universo cercado de pacientes inseguros, ansiosos e constantemente dopados. Pessoas que buscaram refúgio da sociedade no hospício. Um livro louco, mas muito real. (sinopse do Skoob)

E ainda não assisti ao clássico filme homônimo. Mas o livro estava ali paradão, há tempos na minha meta de leitura (minha meta funciona da seguinte forma: eu olho a estante, o livro olha de volta e ele é lido. Fim. Não consigo cumprir outro tipo de meta não. AHAHHA) então o peguei e comecei a ler.

“Às vezes eles me davam uma olhada, às vezes era eu que os espiava, mas raramente nós nos encarávamos. Era muito constrangedor e doloroso. O rosto humano é capaz de revelar muito mais do que é possível tolerar cara a cara.”
Um estranho no ninho, Ken Kesey, p. 7

É bem estranho pensar que o autor fez parte daqueles testes bizarros onde você se voluntaria para ser cobaia de novas drogas, medicamentos etc. que rolavam na década de 60… e depois virou monitor no mesmo hospital (inclusive no mesmo setor.).
Mas justamente esse tipo de experiência foi que forneceu os detalhes pra construir todo esse mundo do hospital, da Ratched e dos pacientes.

E nossa. Que livro tenso. E que livro delicioso de ler ao mesmo tempo. E olha que a edição pocket da BestBolso é bem péssima. A letra não é muito confortável, nem o espaçamento, a folha de rosto é torta… hahaha
Deve ter sido um esforço d’A Liga pra ninguém ler. Quem sabe.

“Os Agudos se movimentam bastante. Contam piadas uns para os outros e riem em silêncio, cobrindo o rosto com as mãos (ninguém jamais ousa se soltar e rir, a equipe inteira do hospital apareceria com blocos de anotações e um monte de perguntas) e escrevendo cartas com minúsculos lápis amarelos mastigados.”
Um estranho no ninho, Ken Kesey, p. 29

É fantástico que o livro inteiro é narrado do ponto de vista de um dos Crônicos. De um dos pacientes que pode ser considerado sem volta. Que acham ser surdo e mudo. Que anda invisível pelas alas. Que só observa passivamente as ações. Praticamente um robô a serviço d’A Liga. O Bromden é um meio índio, meio branco. Pego nessa perda de identidade que tem em vários momentos históricos de transição. Obviamente ele não é invisível, tanto que narra o livro todo, mas é considerado invisível pelas pessoas que o cercam. E essa compreensão é monstruosa.
Acho fantástico que a maneira como vemos o desvelar das coisas, os enlaces políticos, os jogos, as cartadas entre a Ratched e o McMurphy, os outros Agudos da ala, os auxiliares completamente sádicos… tudo isso por um ponto de vista de alguém que, entre aspas, não existe. Ele vê de forma diferente, ele vê a neblina que cobre a todos quando a Ratched quer fazer uma jogada e deixar todos confusos, os fios que joga sobre as pessoas para controlá-las melhor, os chips de controle que implantam durante os tratamentos. Tudo aquilo faz sentido na mente dele. Tudo aquilo é enxergado por ele. Vemos os acontecimentos pelos olhos de um deles.

“Não precisa mais fazê-lo. Eles estão em contato numa onda de ódio de alta voltagem, e os auxiliares estão lá executando sua ordem antes mesmo de pensar nela.”
Um estranho no ninho, Ken Kesey, p. 50

Quando McMurphy chega pra bagunçar tudo, pra romper com a ordem já estabelecida, quando ele se recusa a se conformar, ele, um pária da sociedade, que não aceita regras, doutrinações, nem nada, chega como se fosse um super humano.

“- Vê as orelhas? O nariz se arrebitando? O rabinho bonitinho de pompom?
– Você está falando como um doido…
– Como um doido? Que esperto!
– Merda, Harding, não quis dizer isso. Você não é louco, não desse jeito. Eu quis dizer, diabo, fiquei surpreso de ver que todos vocês são lúcidos. Tanto quanto eu possa dizer, vocês não são mais loucos do que qualquer babaca médio que anda pelas ruas.”
Um estranho no ninho, Ken Kesey, p. 95

E é aos poucos que a humanidade de McMurphy vai sendo revelada. Como por um conta-gotas. Quando vemos o sistema funcionar, pra depois vermos o mesmo quebrando, tendo rachaduras, tendo impacto, rompendo a inércia (romper a inércia sempre é difícil, nesse caso não haveria de ser diferente) vamos vemos o quanto custa mudar. O quanto custa não se conformar num território que já está dominado.

“Houve ocasiões em que eu perambulara por ali num torpor por cerca de duas semanas, depois do tratamento de choque, vivendo numa nebulosidade que é muito parecida com a parte final do sono, aquela zona cinzenta entre a luz e a escuridão, ou entre o dormir e o despertar ou entre viver e morrer, em que a gente não sabe ainda que dia é, ou quem é ou de que adianta voltar.”
Um estranho no ninho, Ken Kesey, p. 371

São 400 páginas de um retrato de uma época que ainda age sobre nós. Um livro infelizmente super atual, só que com menos hospitais e Senhoritas Ratched… na verdade, com menos hospitais e senhoritas Ratched explícitos… hoje em dia eles estão espalhados e agindo de forma muito mais disfarçada e evoluída. Nos fazendo sentir covardes, imperfeitos, desqualificados e, porque não, loucos.

Um estranho no ninho
Autores: Ken Kesey
Editora: BestBolso
Páginas: 418
cinco estrelas

Link do Skoob

 

 

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