conto

E tem mais conto essa semana! Dessa vez, um conto para ocupar seu tempo e o elevador. Com direito à estereótipos e muito julgamento. HAHA

O Elevador do Hall

Viu-a entrando no hall do prédio pelas câmeras. Linda. Uma faixa na cabeça e aquele gingado maravilhoso no andar. Ela correu pro elevador, como sempre ansiosa por voltar para casa. Entrou antes mesmo da porta terminar de abrir. Era seu sonho conversar com ela, mas nunca tivera oportunidade.

Foi distraída por outro residente. Ah. Ele. Justo ele. Não. Um porte franzino, mas que não impedia de se impor quando entre outros. Não havia ninguém que o superasse. Ninguém que o enfrentasse. Não dava para bater de frente com ele. Rumores diziam que um dia desses ele ficou histérico. Gritando pelo corredor. Xingando a tudo e a todos. Sem controle. E ninguém conseguiu fazer com que parasse. Um arrepio percorreu sua espinha, ainda bem que ele entrou direto pelas escadas, não quis se misturar com a gentalha que ia no elevador. Hunf. Dizia que era ‘para ficar em forma’, mas ela sabia que era tudo nojinho.

Passou-se meia hora sem ninguém entrar. Estava dando sono. Era um trabalho entediante esse de monitorar as câmeras. Tocavam a campainha, a porta abria, fechava, as pessoas entravam no elevador ou pelas escadas. Repete. E assim ia seu horário, até o final… Às vezes paravam pra conversar, batiam um papo, mas só.

Não que reclamasse da sua rotina, não, jamais, era só que…

Opa, tem mais um entrando! Ah, aquela era a madame do prédio. Magra, esbelta, diziam que tinha raízes na realeza, ‘sangue nobre’ diziam, alguns usavam o termo ‘sangue azul’. Nunca a viu sangrando para ver se era diferente. Duvidava. Ela caminhava sem olhar para os lados. Mesmo quando chamava pelo seu nome, ela não dava sinais de reconhecer sua existência. Ia sempre direto para o elevador. O máximo que fazia era apreciar seu reflexo no espelho interno, para conferir sua magnificência.

Ah, olha quem vem aí! Ela sempre vinha acompanhada de sua filhinha, uma coisa mais lindinha, estava aprendendo a andar, tropeçava de vez em quando, ia xeretar nos cantos, uma fofurinha. Às vezes atrasava todo mundo, pois quando o elevador vinha subindo, bam, ela saía correndo e a porta abria de novo. Aí tinham que pegá-la no colo para não atrapalhar. Diziam que o pai dela era alemão, um pastor, mas nunca vira nem sinal dele no prédio. Bem, normal. Nunca perguntara nada, vai que ficavam ofendidos.

O bombado foi entrando bamboleando pelo hall. Ouvira falar que o chamavam carinhosamente de “Monstro” quando ele não estava por perto, faziam piadinhas tipo “vem, mooonstroooo!” e coisas assim sempre que a porta do elevador fechava e tinha alguém que ficara para trás. Ele parecia simpático, mas diziam que não conseguia manter o foco de uma conversa por muito tempo. Distraindo-se rápido e até deixando outros falando sozinhos. Bem, fazer o quê.

Deixava a TV ligada na salinha. Mas nunca assistia nada, não entendia o que viam de tão fantástico naquilo tudo. Um monte de imagens repetidas, nada que realmente chamasse atenção, apenas pessoas tentando chamar a própria atenção. Sei lá, melhor nem pensar muito. Deixava ligada pelo barulho.

Opa, ela estava volta! Sua maior companheira! Sua motivação de vida. Ela sempre cumpria seu horário juntinho à ela. Não importava se eram segundas-feiras, se tinha chuva, muito sol, ela sempre sentava ao seu lado e a motivava quando o tédio ficava grande demais e não entrava ninguém no hall.

Infelizmente ela era uma humana, mas a gente sempre deixa passar alguns detalhes em nome do amor incondicional, né. Lati feliz para que ela visse minha alegria pelo seu retorno do banheiro.