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E vamos à uma resenha com uma deixa pra um problema que tem me incomodado bastante e Zetman se torna o exemplo perfeito pra exemplificar uma tendência que (não apenas eu) tem aparecido bastante nos seinens e outros gêneros de mangás…

E recentemente com o caso da moça que sofreu o estupro coletivo tem rolado uma movimentação (necessária, aliás) massiva nas mídias sociais para discutir a Cultura do Estupro.

Eu estava com vontade de escrever sobre isso faz um tempo, e aí pensei que essa resenha que estava para fazer sobre minha opinião final de Zetman (a opinião inicial apareceu AQUI, quando eu tinha lido apenas o primeiro volume) e o porquê larguei mão de ler, seria um exemplo excelente dessa banalização escrota do estupro feminino que tem me cansado tanto de uns tempos para cá.

Se você acessa a página sobre seinen da Desciclopédia (sim, a wikipédia da zuera) ela vai mencionar que sempre tem alguma mulher sendo decepada, estuprada ou coisa afim, em praticamente todos os gêneros de seinens. “Nossa, Camila, mas é uma página de zuera, afff” Sim. A gente só consegue tirar sarro do que já é uma tendência real, certo? E é uma tendência absurda em praticamente todos os seinens que já tive contato. E são seinens que nem se qualificam na categoria de hentais.

Nesse post fantástico do Collant sem Decote sobre a Cultura do Estupro nos mangás e animes, a Joana Fraga perpassa exemplos do nível que a situação chega e do impacto que isso tem numa sociedade como a japonesa.

Já tive contato com vários mangás que utilizam o estupro como trope (recurso comum usado na literatura/cinema etc, como aqueles clichês de filmes de terror que você já fica esperando). A Jodie Foster deu uma entrevista criticando esse uso do estupro como recurso motivador para as personagens femininas.

Não existe um acompanhamento da mulher. Ela vai lá, é estuprada como fetichização. Sexualizam a cena absurdamente e pronto. Ela segue em frente. E o estuprador segue em frente para poder repetir o quanto quiser em outras situações.

Poxa, que excelente né? Quem liga para aquela personagem feminina x? Ela só apareceu por 2 segundos. CLARO que ela seguiu em frente. Que que é um estupro afinal de contas?

Aí voltamos para Zetman.

Na primeira resenha eu só tinha lido o primeiro volume. E pasmem, é um dos únicos que não tem estupro ou alguma situação de abuso com uma menina. Menina porque TODAS AS GAROTAS que aparecem em situações de abuso ou estupro em Zetman são menores de idade. TODAS. Eu fiz um mapeamento da segunda edição até a 10ª, e listei aqui quantos estupros aparecem para quantas meninas como personagens fixos (no volume 4 ocorre uma carnificina escrota onde várias garotas são drogadas, seduzidas e assassinadas, todas elas menores de idade) aparecem:

  • Volume 2: 1 situação de abuso e exposição de menor com uma das personagens principais
  • Volume 3: Todas as adolescentes com uniforme de colégio que aparecem são hiper sexualizadas no vestiário em cenas desnecessárias
  • Volume 4: Como um recurso da história, várias adolescentes são levadas para uma mansão, onde são drogadas, assassinadas cruelmente e uma dela que não queria nada, é estuprada por 2 ao mesmo tempo, em uma cena mostrada por várias páginas e retomada duas vezes. Essa mesma menina relata que já passou por isso anteriormente e depois se torna namorada do personagem principal como SE NADA HOUVESSE ACONTECIDO. Super bem. “Ah, mas apagaram a memória dela sobre o dia da mansão”, mas não sobre o que aconteceu no passado, meu colega.
  • Volume 5: Olha, a segunda exceção sem nenhuma cena. Nenhuma menina aparece, apenas a que já foi estuprada o suficiente no volume anterior.
  • Volume 6: Somos apresentados à mais uma personagem feminina na página 82. Na página 114 ela já é cercada por homens. Ela não durou nem 40 páginas sem sofrer alguma abordagem. Ah, não preciso falar que também é uma menor de idade né? Que também já aparece nua gratuitamente.
  • Volume 7: temos mais um volume de respiro sem cenas de abuso ou estupro. Mas para compensar, cenas coloridas da menor de idade nua.
  • Volume 8: Lembram da namorada do principal? Que foi estuprada por dois? Olha só, ela paradinha esperando ele e pimba, mais um cara para atrás dela e assedia a guria gratuitamente. A outra das principais é sequestrada e abusada por um dos monstros.
  • Volume 9: Olha só, lembra aquela guria que não durou as 40 páginas? Então, dessa vez ela sofre um estupro de um outro cara meio alienígena, em outra cena, pasmem, também mega sexualizada.
  • Volume 10: Lembra a cena anterior? Com a guria das 40 páginas? Então, ela tá super bem, super sussa com o fato de ter sido praticamente estuprada, e ela dá em cima do principal, e, quando alguma coisa vai rolar, o que acontece? Sim, a cena é cortada. Porque só estupro é legal de retratar, né? Pra quê retratar uma relação saudável se posso inserir um monstro biologicamente criado com pedaços de inseto estuprando uma adolescente?

Eu pulei alguns detalhes. Mas em suma, nenhuma, NENHUMA mulher/menina que apareceu nesses 10 volumes de Zetman saiu impune de uma situação ou de abuso ou de estupro. TODAS elas em algum momento foram sexualizadas e abusadas/estupradas.

A história era boa? Sim. Quando eu comecei a ler achei o plot super interessante, dá até pra ver pela minha resenha inicial. Eu estava animada em começar a ler pelas possibilidades que a história parecia ter, e aí sou apresentada a uma história que nada mais é que uma desculpa para mostrar garotas menores de idade em situações escrotas de sexualização e estupro banalizado. Para que serve um estupro gratuito? E sexualizado?

E que vende. E muito.

O que isso vender significa? O que passa? Que é legal uma guria ser estuprada? Que é tranquilo eu sexualizar uma menor de idade? Que as meninas que passam por isso ou querem ou ficam bem depois? Só seguem em frente, já que não foi nada demais?

Foi por isso que parei de ler Zetman. E vou parar de ler qualquer outro mangá que, por mais que tenha uma história boa, acabe por banalizar escrotamente essas situações. E acho que com o nível de discussões que tem rolado na net e fora dela esses tempos, as editoras também deveriam repensar se é uma boa publicar conteúdos desse tipo. Já que estão propagando um conteúdo que passa tudo isso como se fosse normal.