corte de papel

TCHANÃ! Tem conto novo no Castelo! Em Serial Paper temos suspense, celulose e a mais cruel de todas as técnicas de assassinato… vem ver.

E eu sempre quis fazer um conto com minha teoria de assassinato mais cruel de todas as técnicas humanas, mas não tinha feito até hoje. Até hoje.

Uns tempos atrás estava papeando no twitter com o Adriano (gracias, señor!) que me fez ter vontade de finalmente escrever esse conto de suspense e celulose! Então vamos à ele, o Serial Paper!

Serial Paper

As fibras. Tinha uma devoção obsessiva por elas. A maneira como a trama era composta, as diferenças, as impurezas, as gramaturas diferentes e a sensação do tato que elas proviam. Era inebriante poder passar horas analisando cada tipo de papel, cada tipo de organização, de material, de rastros que deixavam ao ser refilados, escritos, cortados… mas a principal sensação de completude era quando testava cores. A maneira como absorviam a tinta, como ela percorria e preenchia os espaços, se ligava intrinsecamente de maneira inseparável e definitiva.

Descobrira sua tinta preferida havia pouco tempo. Por um acidente. E agora sua obsessão mudara. Intensificara-se como uma missão. Um objetivo irrefreável e necessário.

Enquanto cortava e testava, acabou movimentando-se rápido demais. Sua destreza manual pregara o truque da auto-confiança. Cortara-se. Aquele ardor percorreu sua mão, subiu pelo braço e mandou a resposta até o cérebro e de volta. Olhou demoradamente para o seu dedo e viu no papel aquele rastro de sangue. Fora um corte fundo. Que maculara o papel de forma irremediável.

Irremediavelmente bela. Perfeita.

Tinha de testar. Tinha de dar a oportunidade da conjunção perfeita a todos os papéis. A perfeição celulósica para todos.

Descobriu certos tipos de sangue que funcionavam, não testaria em si mesmo, não poderia alcançar seu objetivo dessa forma. Descobrindo maneiras melhores, maneiras perfeitas de completar a missão dos papéis, agora sua. Muito sangue? Não chegava ao resultado esperado. Pouco? Tampouco.

Recortou os jornais que retratavam de maneira incorreta suas tentativas e testes. Guardou-os cuidadosamente em uma pasta. Era lindo e quase poético ver impresso em papéis que eram seu objetivo aquelas manchetes retratadas. Seus testes cuidadosamente realizados estampados ali por prensas rotativas. Não importava se o retrato era incorreto. Os papéis estampavam-os imparcialmente, não se importavam com os conteúdos.

Foi em uma tarde fria que descobriu a fórmula perfeita. Parecia burrice que dera tantas voltas sendo que a resposta estivera a todo tempo em sua cara. Os cortes de papel. Deveria ter testado eles antes. Mas deixou-os para o final. Não importava o tempo que levara. Agora finalmente sabia qual a melhor forma de completar os papéis. Cortes rápidos. Precisos. Profundos. Em pedaços pequenos de papel. Aquele sangue fresco que os preenchia.

E uma fonte quase contínua, com apenas uma pessoa seria capaz de completar metros e metros de papel. De torná-los perfeitos e maravilhosos. Uma pessoa por vez. Uma folha por vez.

Pegou sua pasta e suas folhas. Pegou seu chapéu e um casaco. Saiu de casa com um sorriso. Imaginando a beleza das próximas manchetes.

 

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