valter hugo mãe

e finalmente consegui ler um valter hugo mãe! sem metafísicas, sem pudores, sem maiúsculas e sem nenhum líquido restante nesse corpinho que vos digita agora, vem ver o que achei…

sinopse: É uma obra de maturidade a que agora chegará às mãos dos leitores, conseguida pela grande capacidade de criar personagens que este autor sempre revelou, aqui enredadas nas questões da velhice, da sua ternura e tragédia, resultando num trabalho feito da difícil condição humana mesclada com o humor que, ainda assim, nos assiste. a máquina de fazer espanhóis é uma imagem livre do que somos hoje, consequência de tanto passado e dúvidas em relação ao futuro. É um livro de reflexão sobre a fidelidade na amizade ou no amor. No país dos silvas poucos serão os que escapam a pensamentos paradoxais de profundo amor pela nação misturados com uma ancestral dúvida sobre se não estaríamos melhor como cidadãos do país vizinho. Entre o dramático da vida, com a idade a descontar o tempo, e o hilariante da casmurrice e senilidade, este romance é um retrato dos homens que perduram depois da violência mais fracturante. É um retrato delicado e sensível da terceira idade, com o que acarreta de ideias confusas sobre o passado e sobre o presente. (sinopse via skoob, mantive as maiúsculas haha)

antes de começar, não vai haver nenhuma maiúscula nesse post. por quê? bem, porque elas não são necessárias para alguém que acabou de sentir a dor de pensar de perder a própria metafísica num nível muito profundo. e também porque o senhor silva não as usa durante toooodo o livro. então, vou honrá-lo com essa genialidade que valter hugo mãe teve.

(aliás, é bem difícil escrever sem maiúsculas, o dedo vai direto no shift instintivamente logo depois dos pontos finais digitados e dos nomes)

me indicaram que lesse algo do valter hugo mãe (gracias, lauren!), aí aproveitando esse ensejo da cosac naify fechando (por quêeeeeeeeee????) e umas promoções loucas da amazon que foram aparecendo pros livros da editora e um certo desespero consumista pelos livros maravilhosos, acabei pegando o a máquina de fazer espanhóis e o filho de mil homens.

comecei pelo a máquina de fazer espanhóis pelo título. fiquei curiosa em saber do que se tratava, embora não seja o tipo de livro que eu vá atrás ou leia geralmente. camila aqui corre nas ficções e fantasias, a realidade é real demais pra ela geralmente. mas, porém, contudo, todavia, comecei.

“o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 83

o livro fala sobre o senhor silva, aliás, quem fala é o senhor silva. sem nenhuma maiúscula, sem nenhum interesse por esse resto de existência que chamam vida depois de perder sua esposa.

“não a posso deixar aqui sozinha. não estaria sozinha. estaria sozinha de mim, que é a solidão que me interessa e a de que tenho medo.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 14

ele sofre. e você sofre junto. nem conhecemos direito o senhor silva ainda, mas a sinceridade com que descreve seus sentimentos dói. e sofremos com ele. vemos sua rabugentice, suas casmurrices, dia após dia. ele é internado no asilo por sua filha, e vemos todas essas mágoas de quem envelhece, de quem ainda queria continuar com suas independências, seu isolamento por tanta experiência que tivera.

“achei que aquele silva era um imbecil dos grandes e que me estava a empatar as energias com retóricas a chegar a um ponto em que a irritação me fazia agir contra a vontade de estar quieto.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 13

tem vários personagens que vão marcando a gente. por vezes que esquecia os nomes, não lembrava quem era quem, senhor pereira? senhor cristiano? anísio? américo? a dona leopoldina locona? mas pouco a pouco a gente vai acostumando com os nomes, vendo todas as camadas de personalidade que cada um tem, suas manias, suas grosserias, suas falhas.

“o américo não é habilitado por escola nenhuma senão pela do coração. estudou pela amizade e compaixão os modos de acudir aos outros. faz no lar o que fazem os enfermeiros também, mas com um acréscimo de entrega que não se exigiria.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 29

não se tem pudores quando é a pessoa falando. ela fala tudo de forma honesta. coisas que às vezes pensamos, sentimos, mas ficamos com vergonha de falar porque não é certo pensar, falar, sentir. o senhor silva tem defeitos, faz coisas que chocam quando a gente lê… mas… mas é dele. eu fui aceitando o silva, aceitando o que foi fazendo. me abrindo a compreender quem era aquele senhor casmurro que foi se abrindo aos poucos.

“e eu, que estava calado numa tristeza profunda, só então falei para dizer, o doutor sabe que aquele homem é alguns dos melhores versos do fernando pessoa. aquele homem é a nossa poesia problematizada. a longevidade dele foi uma demorada marcha contra a derrota.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 143

o senhor silva vai aprendendo a aceitar a vida sem laura, a vida trancafiado, a vida que ele não queria. e eu fui aprendendo a aceitar o senhor silva.

“(…) muito do que não existe é do mais importante da vida, não despreze nada, senhor silva, agarre-se a uma fantasia se for boa, que a realidade é benfeita desses momentos mais espertos de lhe fugirmos de vez em quando.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 181

aliás, que difícil a escrita de alguém que não quer vida! essa falta de maiúsculas, a falta de indicadores de diálogo. eu demorei bastante pra não me perder no caos do desinteresse do silva por explicar quem fala o quê, quando fala, quando é pensamento dele mesmo ou se ele está falando pra alguém. é um caos. um caos do desinteresse. uma sopa louca de letras e aprendizado (até porque o livro tem muita coisa de portugal, dos portugueses, da ditadura do salazar, desse contraponto com a espanha, que me demandaria muito mais noção das culturas desses dois países que infelizmente não tenho. é uma aula de história e nacionalismo português que seria ainda mais rica se eu soubesse mais).

“somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstém. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar.”

a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe, p. 154

eu fui desidratando aos poucos. aprendendo sobre um ponto de vista que não tenho. seja porque estou ainda na casa dos vinte, seja porque não convivi tanto assim com quem passa por isso. não sei. foi um livro que me tocou de uma forma bem dolorida. valter hugo mãe escreve de uma forma magnificamente sincera e aberta. aberta até demais.

estranhamente eu demorei muito pra ler. esse livro não é um livro pra ler rápido, naquelas sentadas boas numa tarde. não. tinham dias que eu pegava o livro e só conseguia ler um capítulo, por vezes, meras 5 páginas. foi estranho. mas tinha sentido. foi um livro que em cinco páginas me saturava tanto que eu não consegui avançar. precisava parar, viver um pouquinho, ver uns memes ou coisa outra, e voltar.

“depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu, que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade.”

a máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe, p. 237

portugal, essa máquina de fazer espanhóis não é algo que eu conheça, além do clichê que passamos. a distância linguística é maior do que parece também. a cultural então, nem se fale. mas essa linguagem da velhice, da vida, da amizade e da casmurrice e aprendizado… essas aprendi com o senhor silva por meio de uma empatia maravilhosa.

a máquina de fazer espanhóis
autores: valter hugo mãe
editora: cosac naify
páginas: 256
cinco estrelas (e um enorme coração, eu sei, ainda vou arrumar os desenhos. calma.)
link do meu perfil do skoob

 

ps.: demorei uns cinco capítulos para perceber que eram pássaros na capa.

ps.:² se você não viu ainda o post de semana passada da minha alegria extrema em terminar o cdc rei, corre aqui