laranja-mecanica

Enquanto Alex bate um papo com seus druguis e me conta seus flashbacks, chega aqui que tem a resenha de Laranja Mecânica! (pegue seu Moloko ~especial e vem ler)

Sinopse: Publicado pela primeira vez em 1962, e imortalizado 9 anos depois pelo filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica não só está entre os clássicos eternos da ficção como representa um marco na cultura pop do século 20. Meio século depois, a perturbadora história de Alex – membro de uma gangue de adolescentes que é capturado pelo Estado e submetido a uma terapia de condicionamento social – continua fascinando, e desconcertando, leitores mundo afora. (Sinopse do Skoob)

E tchanaaan, lá vai Camila ainda lendo os livros que comprou na CCXP de 2014 HAHA

Fazia bastante tempo que estava com vontade de ler o Laranja Mecânica, aí vi que essa edição de 50 anos vinha com ilustras do Dave Mckean (<3)  então uniu o útil ao “meo deos, ilustras do dave mckean numa edição com capa dura!” (sim, sou péssima.). Então acabei pegando.

Dave Mckean, seu lindo.

Dave Mckean, seu lindo.

Mas só consegui sentar e ler esses dias, e olha. Que. Livro. Incrível. Me fez ficar tendo conversas com os colegas e pais até umas 4 da manhã em mais de uma ocasião.

“A gazeta falava o de costume sobre ultraviolência, assalto a bancos, greves e jogadores de futebol deixando todo mundo paralítico de medo com ameaças de não jogarem no próximo sábado se não recebessem salários maiores, maltchikviks safados.”

Laranja Mecânica, Anthony Burgess, p. 89

Como acontece com a maioria dos livros distópicos antigos, eles previam uma realidade que estamos vivendo hoje. Seja em Admirável Mundo Novo, nos livros do Orwell, do Asimov… não importa. Todos previam uma realidade que, guardadas as proporções e especificidades, estamos vivendo hoje. É o tipo de livro sempre muito bem carregado de tapa na cara, questionamentos, reflexões e bem… se você se acha muito melhor que o Alex por falar aquela linda e clássica frase “bandido bom é bandido morto”, pense novamente.

“Mas, irmãos, esse negócio de ficar roendo as unhas e os dedos do pé sobre qual é a causa da maldade é que me torn um maltchik risonho. Eles não procuram saber qual a causa da bondade, então por que ir à outra loja?
(…) eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o mau porque não conseguem permitir o eu.”

Laranja Mecânica, Anthony Burgess, p. 89

O Burgess propõe um livro em que você tem um personagem ferradamente carismático (ó, Alex), com uma conduta digamos… não muito apropriada. Ele e seus druguis saem por aí fazendo a velha e boa ultraviolência, que vai incluir assaltos, estupros, bebedeira e uso de drogas (todas muito bem regadas na bebida láctea moloko). Mas Alex é aquilo que ele é. Ele é autêntico. Justamente por isso, enquanto você lê bate aquela sensação estranha de “pelo menos ele é honesto, o resto da galera toda é tão hipócrita que chega a doer”, mesmo que você não aprove o que ele faz quando inserido na sociedade.

Um fato interessante: ele tem 15 anos nessa primeira parte. Conversando com uma amiga acabamos chegando à conclusão de que realmente, com 15 anos você ainda acha que pode tudo, que é o rei do mundo, a idade só começa a bater depois dos 18, quando você começa a crescer e tentar entender o que quer e quem é.

Burgess construiu um personagem transviado para jogar na sua cara o que significa liberdade e controle. Ele jogou nosso egoísmo na cara, nossas hipocrisias, e se a gente acha legal um tratamento como o Ludovico…

“Ele olhou para mim, irmãos, como se não tivesse pensado nisso antes e, de qualquer maneira, não importava, comparado com a Liberdade e aquela kal total, e ele tinha um ar de surpresa por eu ter dito o que disse, como se eu estivesse sendo egoísta por querer algo para mim mesmo.”

Laranja Mecânica, Anthony Burgess, p. 239

A dimensão política, a manipulação da mídia, o modo como se manipula a opinião e pessoas e não se liga em jogá-las fora por um ideal. 

É tanto tapa na cara que nem sei como passar por tudo.

Aliás, uma coisa que fica bem difícil é lidar com tanta palavra inventada.

ALIÁS. PARENTESES AQUI. Aleph, que coisa mais linda foi essa introdução foderosa (não tem palavra melhor) com as notas sobre a tradução? Traduzir um livro carregado de significado, tentando manter as inferências todas é um esforço absurdo. E foi lindeza demais de ler. O autor juntou inglês, o cockney(essa girias todas de operário britânico), russo… e fez uma língua totalmente diferente.O nadsat. Essa gíria de gangue dessa Inglaterra futurista.

Trazendo pra um tempo atual, se alguém (nem precisa ser alguém de outra época, pegue seu pai/mãe/alguém mais velho) entra no Twitter e tenta entender tudo que está lá, não absorve nem 10% com a quantidade de abreviaturas, intenções, memes, referências que estão lá.

A imersão nesse mundo do Laranja Mecânica é tão plena que as gírias são próprias de lá. E isso é fantástico. Mas é bem difícil ao mesmo tempo, você vai se acostumando conforme vai lendo com algumas palavras, mas tem que ir toda hora no glossário de termos pra entender ou relembrar.

Essa edição também tem vários artigos do Burgess e mais algumas notas e extras, é uma coisa linda que só. (Pra resumir de forma bem eloquente.)

Burgess criou o mundo ideal em Laranja Mecânica pra mostrar tudo isso. Mostrar que uma pessoa mudar pela própria vontade é melhor do que você tirar o poder de decisão dela. Que é dela. Um misto de orgânico e inorgânico é bizarro. Uma laranja mecânica é bizarra. E não deveria estar sendo considerada.

Laranja Mecânica – Edição Especial 50 anos
Autores: Anthony Burgess, com ilustras de Dave Mckean, Angeli e Oscar Grillo
Editora: Aleph
Páginas: 352
cinco estrelas (e um coração)